Laços comuns

Wagner Zaparoli

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Movimentos migratórios são mais comuns em regiões de conflitos e guerras, onde a civilidade normalmente cede lugar à irracionalidade. Exemplos atuais são a Síria e a Venezuela.
A guerra civil na Síria iniciada em 2011 com o movimento Primavera Árabe, além dos mais de 450 mil mortos, provocou um verdadeiro êxodo migratório de refugiados para países vizinhos. Números de 2018 dão conta de que mais de cinco milhões de sírios já deixaram o seu país natal tentando sobreviver à desumanidade ali instalada no transcorrer do conflito.
Uma situação semelhante tem se dado na vizinha Venezuela. Embora não exista um cenário de guerra declarada, o ditador Maduro tem imposto à população venezuelana um regime de penúria e brutalidade, o qual ceifou somente em 2016 cerca de 30 mil vidas e provocou desde 2014 um fluxo migratório de mais de 2,3 milhões de pessoas para fora do país.
Analogamente ao processo extrafronteira, o movimento de deslocamento interno da população de um país se tornou muito comum, principalmente no Brasil, cuja população rural alcançou as grandes cidades em processo denominado êxodo rural, a partir de meados do século XX.
Sem entrar no mérito das causas desse dinamismo, que em sua maioria recaem sobre a busca de melhores condições de vida, o fato é que nos últimos anos estudos têm demonstrado uma estreita relação entre a urbanização e a esquizofrenia – distúrbio mental caracterizado pela perda da realidade.

As bases científicas
Estudo realizado por Jim Van Os, da Universidade de Mastricht, com mais de sete mil pessoas entre 18 e 54 anos revelou grande incidência de doenças mentais em indivíduos que vivenciaram traumas, como abusos sexuais, perda prematura dos pais e discriminação em seus novos países – no caso dos imigrantes.
Outro estudo realizado por Elizabeth Cantor-Graee, da Universidade de Lund, demonstrou em 2003 que dos 2,1 milhões de suecos nascidos entre os anos de 1954 e 1983, os que emigraram para a Dinamarca apresentaram uma probabilidade 2,5 vezes maior de desenvolver esquizofrenia do que aqueles que permaneceram no país. Ainda no mesmo estudo, os dinamarqueses que viveram fora do país e retornaram, tiveram quase duas vezes mais risco de desenvolver o distúrbio do que os irmãos que permaneceram na terra natal.
Por fim, Carsten Pedersen e Preben Mortensen publicaram em 2001 na revista British Journal of Psychiatry, estudo que diz que moradores de Copenhague estão sujeitos a um risco duas vezes maior de se tornarem esquizofrênicos do que os seus conterrâneos moradores do campo.

A reflexão
Se antes se creditava o surgimento da esquizofrenia a causas puramente genéticas, hoje já se permite um novo coadjuvante: os fatores ambientais. Há décadas descobriu-se um fato significativo para essa possibilidade em estudos realizados com gêmeos idênticos. Se um deles se torna esquizofrênico, o outro tem 50% de risco de se tornar também. Ora, se os fatores genéticos fossem os determinantes absolutos da esquizofrenia, era de se esperar que a referida probabilidade fosse 100% e não 50% como se verificou.
Tudo leva a crer que os fatores ambientais influenciam diretamente o funcionamento da comunicação entre os neurônios, de tal forma a aumentar a probabilidade para os desequilíbrios mentais nervosos. Além disso, o ambiente externo pode acionar um ou mais dos cerca de 30 genes relacionados ao problema, os quais agem sobre os neurônios danificando as conexões entre as células nervosas.
Nos últimos dez anos pesquisadores vêm descobrindo particularidades nos cérebros de esquizofrênicos. Por exemplo, sabe-se que neles há alterações de dopanina e glutamato – moléculas de comunicação entre neurônios – além de uma menor circulação de sangue em algumas áreas. Ainda, nos esquizofrênicos as cavidades do meio do cérebro chamadas ventrículos, são maiores, e o hipocampo, chave para a memória e aprendizado, é menor.
O fato dos genes perderem o privilégio para os fatores ambientais como causa única da esquizofrenia é só mais um capítulo de uma história que está apenas começando. Muito ainda está por se descobrir. O nosso cérebro continua sendo um dos grandes mistérios do corpo humano.

(Colaboração de Wagner Zaparoli, doutor em ciências pela USP, professor universitário e consultor em tecnologia da informação).