A ambição soberba

José Renato Nalini

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Em tempos de coronavírus, uma das opções para quem precisa ficar trancafiado e em isolamento social, é revisitar obras clássicas. Uma delas, muito comentada e pouco lida, é “Dom Quixote de la Mancha”. Não é leitura que se faça de supetão. Merece reflexão a cada texto.
Encontro um trecho que parece oportuno mencionar, para aqueles que estão – e com carradas de razões – desesperados com a paralisação de muitas atividades. Miguel de Cervantes fala: “Vão uns pelo largo campo da ambição soberba, outros pelo da adulação servil e baixa, outros pelo da artificiosa hipocrisia e alguns pelo da religião sincera”.
Os quatro tipos citados estão visíveis na crise. A ambição soberba de alguns que pensam na economia, como se ela existisse por si mesma, esquecendo-se de que é – ou deveria ser – instrumento para servir aos humanos. São os que consideram as mortes meras cifras, menores do que se propala. Afinal, o que são algumas dezenas de milhares defecções, para uma população superior a 210 milhões de habitantes?
A adulação servil e baixa também continua a bajular os detentores de cargos públicos, ainda que eles sejam toscos, brutos e ignorantes. O que interessa é estar perto do poder. A vassalagem é cega à evidência, despreza a ciência, mas quer agradar quem tem a caneta.
O grupo da artificiosa hipocrisia é aquele que se vale da pandemia para garantir situações de privilégio ou tirar vantagem. Não se acreditaria, não se estivesse no Brasil, que alguns se valham do estado de necessidade e quisessem usufruir, de forma imoral – embora possa até ser legal, diante da situação de calamidade – das exangues tetas da República.
Locupletar-se com a morte alheia deveria reservar um lugarzinho especial na metafórica visão do inferno, que Dante desenhou na “Divina Comédia”.
Enfim, existem aqueles que perfilham a senda estreita e dificultosa da religião sincera. Aquela que ofereceu à humanidade a regra de ouro: amar ao próximo como a si mesmo. Um próximo que está depauperado, faminto, desempregado, desassistido, abandonado. E perplexo, com a falta de preparo de parcela considerável do governo que elegeu.
Tentar fazer algo para amenizar a dor e o sofrimento de quem suporta o flagelo trazido pela peste, é o que se esperaria de gente decente. E essa gente existe. Nem sempre propala o que faz. Porém atua, dentro de suas condições e possibilidades, para socorrer o aflito.
Dizem que o mundo será diferente quando a pandemia der trégua. Não é fácil acreditar que os três segmentos sinteticamente descritos por Miguel de Cervantes possam desaparecer, junto com o coronavírus. A visão hobbesiana de mundo sabe que a matéria de que é feita o ser humano é pouco afeiçoada a perseverar no bem. Mas não custa sonhar, acreditando que a solidariedade, a fraternidade e o amor ressurgirão fortalecidos depois dessa tragédia que dizima o planeta.

(Colaboração de José Renato Nalini, Reitor da Uniregistral, docente da Pós-graduação da Uninove e Presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020).

 

Publicado na edição nº 10499, de 8 a 10 de julho de 2020.