A fama e a fumaça

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Com a imposição de barreiras cada vez mais fortes por parte de alguns países contra a indústria do tabaco, uma outra indústria, a cinematográfica, virou moeda extremamente valorizada nas últimas décadas. Não é necessária nenhuma pesquisa para se concluir que a indústria tabagista está jogando pesado e inserindo cada vez mais imagens explícitas de mocinhos fumando nas principais cenas dos filmes. Entretanto, as pesquisas existem e corroboram com a percepção popular, mostrando que a incidência de pessoas fumando nos filmes, inclusive em títulos produzidos para os jovens, foi maior nos últimos anos do que vinha acontecendo desde 1994. E a pesquisa vai além, mostra a correlação direta entre o fumo na tela e adolescentes adotando o hábito.
Pesquisadores de Dartmouth College nos Estados Unidos realizaram um estudo cuja conclusão é inequívoca: adolescentes que assistem mais cenas com cigarro nos filmes têm quase três vezes mais chance de se viciarem.
As imagens geralmente transmitem a mensagem que “gente legal fuma”. Como diz o professor de história da Universidade da Califórnia do Sul, Steven Ross, “se Clint Eastwood aparece fumando, todo mundo o acha macho; se for uma mulher fatal, como Sharon Stone, as pessoas acham sexy”.
O pior é que o problema não se restringe somente aos atores e atrizes na tela. Frequentemente as suas imagens em cenas do cotidiano revelam o vício por trás da fama, como aconteceu a algum tempo com Leonardo DiCaprio tragando na revista People, Kate Hudson segurando um cigarro na Us Weekly e Kevin Federline fumando ao lado da ex-esposa grávida Britney Spears, na In Touch.
Em tese, essa discussão não deveria perpassar a vida íntima dos famosos, haja vista que cada um sabe cuidar da sua própria. Mas, posto que a fama lhes imputa a característica de pessoa pública que pode servir de modelo para milhões de jovens no mundo todo, a situação assume nova dimensão. Stanton A. Glantz, diretor do Centro de Pesquisa e Educação de Controle de Tabaco da Universidade da Califórnia, afirma que as celebridades deveriam ter consciência da influência que podem exercer sobre os jovens fãs.
Mas, se não há como proibir por ora que a imagem do cigarro seja associada ao cinema e suas estrelas, Glantz sugere duas ações para minimizar o efeito negativo: qualquer filme que apresente cenas de fumo deve receber automaticamente indicação para maiores de 18 anos; e nenhuma marca de tabaco deve aparecer nas cenas, impedindo que qualquer uma se beneficie diretamente.

Por trás da cortina de fumaça

O tabaco é a substância que isoladamente mais mata no mundo. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, 5 milhões de pessoas morrem anualmente devido a doenças relacionadas ao fumo. Estima-se que em 2020 o tabaco vai matar mais do que a Aids, tuberculose, acidentes de carro, suicídios e homicídios, todos juntos. É isso mesmo, todos juntos!
No mundo atualmente existem cerca de 2 bilhões de fumantes. A cada novo dia, 100.000 jovens aderem ao vício, sendo desses, 80% residentes nos países em desenvolvimento.
Para os fumantes que pensam estar ludibriando as doenças ao fumar poucos cigarros ao dia, vale mencionar pesquisas realizadas na Noruega entre 1970 e 2002 com 43 mil homens e mulheres que indicam que aqueles que fumam de 1 a 4 cigarros por dia têm três vezes mais risco de morrer de doenças coronárias, aumento em cinco vezes a chance da mulher morrer de câncer de pulmão e três vezes a chance de um homem morrer da mesma doença.

As vias da solução

Nenhuma solução radical vai melhorar o panorama da incidência do tabagismo no mundo. Proibir pura e simplesmente o uso do cigarro provavelmente levaria os consumidores a manter o vício de forma camuflada como acontece hoje com outras drogas como a maconha, que, proibida e coibida com punições severas faz prosperar um submundo pouco controlado pelo poder público. É preciso haver uma estrutura e um processo contínuo que literalmente abrace o fumante e o ajude a parar com o vício.
Por outro lado, salvaguardar os produtores que queiram deixar de plantar fumo para se dedicarem a outra cultura também deve contribuir substancialmente para a mudança do cenário. Eles vão continuar cultivando a mesma cultura para sobreviver se não houver estímulos.
Por fim, é necessário que o Brasil articule rapidamente a organização e implementação de uma agenda governamental para o cumprimento das obrigações previstas no tratado Convenção-Quadro, ratificada pelo Senado Federal em outubro de 2005.
Afinal, é preciso quebrar definitivamente esse ciclo horrível de doenças e mortes causadas pelo vício no cigarro.

Publicado na edição nº 10015, de 28 e 29 de julho de 2016.