A genialidade da criação

Wagner Zamparoli

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Provavelmente a grande maioria dos leitores sabe que o inventor da lâmpada elétrica foi o americano Thomas Edison. O que talvez poucos saibam, é que ele também inventou o fonógrafo, o cinetoscópio e registrou mais de mi1 patentes nos seus 60 anos de produção profissional – ou como ele próprio dizia – 60 anos de muita criação.

Contrariando a sequência natural da formação de um jovem, principalmente sendo ele o grande inventor que possibilitou a existência da luz nos lares do mundo todo, Edison abandonou a escola ainda na primeira série, fato esse que até poderia nos surpreender, mas que na verdade não fez a menor diferença na sua capacidade inventiva.

Qual teria sido o segredo então?

Muito simples. Ele, depois de iniciar a longa caminhada das invenções, sempre se acercou dos melhores engenheiros e cientistas disponíveis na época, os quais lhe ajudavam a reverter os desvios provocados pela sua deficiência básica em ciências. Poderíamos até pensar que tais deficiências tenham aberto o caminho para a sua mente criativa sistematicamente gerar idéias tão geniais que revolucionaram o mundo tecnológico. Talvez, se tivesse sido moldado pelo formalismo de uma estrutura educacional tradicional, não conseguisse os seus maiores feitos. Talvez a lâmpada elétrica não nos chegasse à forma como chegou; talvez Edison tivesse vivido como mais um pobre filho da revolução industrial.

 

Os registros detalhados e a arte da criação

É difícil saber o exato momento da criação. Pode até ser coincidência, mas inúmeros relatos dão conta que ele acontece em ocasiões menos propícias para tal, como nos momentos de relaxamento e lazer.

Com Edison esses momentos eram frequentes, como borbulhas numa panela de água fervente. Era um verdadeiro predestinado e conhecendo-se a si mesmo, sempre carregava consigo um caderninho de anotações. Nos seus 60 anos de produção, preencheu mais de 3.500 desses, dos quais resultaram em mais de mil diferentes invenções.

E seu método era relativamente simples, embora trabalhoso: nas primeiras linhas de suas anotações ele descrevia o “objeto a ser inventado”, para formar um embasamento mínimo. Se obtivesse esse embasamento, ele detalhava exaustivamente a sucessão de mecanismos internos do objeto, identificando-os organizadamente em ordem alfabética com o objetivo de tornar o requerimento da patente um documento impecável, à prova de imitações.

Num segundo momento ele reunia a sua equipe e discutia a idéia emergente, mas não sem antes transferir as anotações do caderno de bolso para um diário de laboratório.

Nas mãos de engenheiros e cientistas as suas idéias transformavam-se em invenções, algumas de alcance mundial e de forte relevância social como foi o caso da lâmpada elétrica, outras mais modestas e pouco funcionais, como o caso da Boneca Falante, cuja idéia maravilhosa de alegrar as pequeninas, tornou-se um tremendo fiasco tecnológico devido à alta fragilidade de seus componentes internos.

 

Minúcias de um cotidiano

Embora fosse um inventor nato, Thomas Edison em 1910 já demonstrava ter uma consciência de sustentabilidade, preocupando-se com o impacto da tecnologia em franca expansão sobre o meio-ambiente. Tanto que lhe passava pela cabeça que os carros à combustão interna produzidos por Henry Ford não tinham futuro e seriam substituídos pelos carros elétricos que apresentavam nível zero de poluição ambiental. Infelizmente ele se enganou; hoje a herança de Ford roda por todos os cantos do planeta deixando as suas sujas marcas em nossas vistas, em nossa pele e em nossos pulmões.

Thomas Edison também tinha alguns pensamentos e hábitos nada ortodoxos: não acreditava no benefício do exercício físico, mascava frequentemente tabaco, fumava vários cigarros por dia, se alimentava durante longas temporadas apenas com leite e conseguia dormir por alguns minutos onde quer que fosse para levantar completamente recarregado.

Morreu em 1931 aos oitenta e quatro anos ainda sonhando com novas invenções.

(Colaboração de Wagner Zaparoli, doutor em ciências pela USP, professor universitário e consultor em tecnologia da informação).

Publicado na edição 10.583, de 3 a 8 de junho de 2021.