A singularidade entre o humano e o tecnológico

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A narrativa a seguir trata da sensível combinação entre realidade e ficção e se passa em um futuro não muito distante. O seu foco recai principalmente sobre a ética que conduz as evoluções científicas e tecnológicas. Boa leitura!
Durante vários anos organizações no mundo gastaram enormes quantias de dinheiro e tempo para criar o robô perfeito, feito à imagem e semelhança do homem nas ações e no pensamento. Já no final do século XX era possível observar a existência de robôs que executavam ações básicas, como caminhar, pegar com as mãos, cheirar e chorar. Uma das virtudes desses robôs era a realização de cálculos rápidos, tanto que de uma geração em diante, não havia surgido nenhum ser humano, gênio do xadrez, capaz de vencer um deles.
Entretanto, no recente ano de 2030, embora a tecnologia tivesse dado um salto na evolução como o fizera em meados do século XX com a criação dos computadores, nenhum robô era tão perfeito quanto o próprio homem. Nenhum investimento, nenhum projeto havia sido capaz de criar um robô que tivesse nos meandros de seu pensamento, um só indício do livre-arbítrio. Todos os projetos sob esse enfoque falharam.
Mas nem tudo estava perdido.

A tecnomassa cinzenta
Muitas organizações já haviam desistido de criar robôs perfeitos quando uma delas, de fundo biotecnológico, conseguiu adaptar pela primeira vez um cérebro humano à estrutura de um robô, análogo ao imaginário dos NS-5 de Isaac Asimov ou do Frankenstein de Mary Shelley. A adaptação havia sido tarefa árdua naquele verão de 2030. Para se ter uma idéia, ela envolveu pesquisadores de diversas áreas do conhecimento, como engenheiros, físicos, químicos, matemáticos, cientistas de dados e neurocientistas, para citar apenas alguns. E embora fosse algo fantástico sob a óptica da ciência e da tecnologia, nada foi divulgado na mídia e nenhum Prêmio Nobel foi entregue a equipe realizadora do feito.
A bem da verdade todo o processo foi feito às escondidas. Havia certo receio de possíveis represálias por parte de grupos fanáticos e religiosos. Esse processo de criação de robôs era inovador, já que unir uma pequena, mas fundamental peça do ser humano, a um esqueleto de cabos e fibras nunca havia sido realizado ou mesmo cogitado pelo homem até então, mesmo para os padrões de uma sociedade evoluída como a de 2030.

Os propósitos
A despeito dos conflitos éticos e morais que envolviam a construção de um robô com cérebro humano, os pesquisadores levaram o projeto a cabo por acharem que esta seria a única saída para criar robôs que aprendiam, pensavam, e interagiam com os seres humanos de forma natural. Nenhum outro processo tecnológico, mesmo aqueles que envolviam inteligência artificial seriam capazes de permitir a um robô tamanha sofisticação.
Com o sucesso obtido pela junção do cérebro e da parafernália tecnológica, os pesquisadores estavam prontos para dar um segundo passo que seria testar o potencial de controle do cérebro sobre a máquina. Caso houvesse evidências positivas, a equipe iria se preparar para fabricar cérebros fora do corpo humano, utilizando técnicas avançadas de biotecnologia e genética. Para eles o trabalho se resumia unicamente ao bem da humanidade.
Voltando agora para 2019 e fazendo uma breve reflexão sobre os criadouros de cérebros – aqui apenas uma divagação ficcional por mais esdrúxula que possa parecer – o fato é que um dia ela poderá se tornar realidade na medida em que a criatividade científica se mantém infinita. Senão vejamos. Hoje, pesquisadores já conseguem criar mini-cérebros que imitam a atividade neural de bebês prematuros (http://sciam.uol.com.br/cientistas-criam-mini-cerebros-em-laboratorio-capazes-de-imitar-a-atividade-neural-de-bebes-prematuros/). Também já projetam a fusão homem-máquina, embora com grande desconfiança da comunidade acadêmica (https://exame.abril.com.br/ciencia/fusao-homem-maquina-continua-sendo-uma-fantasia-dizem-cientistas/). E manipulam o cérebro, criando memória completamente artificial (http://sciam.uol.com.br/estudo-pioneiro-manipula-o-cerebro-e-cria-memoria-completamente-artificial/).
O futuro certamente promete. Mas, será que a ciência, pautada puramente na ética e na verdade, conseguirá manter iluminado o caminho da humanidade como o fez no século XVIII, quando interrompeu uma era de obscurantismo e ignorância forjada no alvorecer da Idade Média? Como diz o velho ditado, quem viver verá!

(Colaboração de Wagner Zaparoli, doutor em ciências pela USP, professor universitário e consultor em tecnologia da informação).

Publicado na edição de nº 10429, de 21 a 24 de setembro de 2019.