A viagem e o sonho

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Benedicto Ismael Camargo Dutra

Viajar de avião é muito seguro, mas as normas devem ser respeitadas e providos os recursos necessários para que a qualidade dos serviços seja mantida, independentemente, do aumento do número de passageiros e da quantidade dos voos. Em Nova York, o movimento nos aeroportos é imenso, sendo possível contar as dezenas de aviões enfileirados, aguardando para decolagem. Apesar disso, tudo funciona satisfatoriamente.
Muitas pessoas quando viajam de avião aproveitam para sonhar com algo que traga felicidade e para fazer projetos. Mas, ultimamente, ao invés de possibilitar essas reflexões, as viagens aéreas têm se transformado numa maratona estressante.
Já há algum tempo embarcar em um avião, nos principais aeroportos do Brasil, tornou-se uma tarefa árdua, cansativa e geradora de estresse. O cenário é desolador: filas intermináveis em ambientes apertados e mal arejados, pessoas ansiosas e com medo de perder o lugar, desconforto para despachar e carregar as bagagens, desatenções da parte dos funcionários das companhias aéreas para com os usuários, entre tantos outros problemas. Poltronas com espaços mínimos.
Um dos exemplos dessa situação caótica a que chegamos, foi o de um casal que havia comprado as passagens com antecedência com os assentos marcados, e que enfrentou dificuldades para chegar ao guichê. Quando eles finalmente foram atendidos, receberam um aviso que teriam de viajar em poltronas separadas. Ao reclamar do ocorrido ainda tiveram que ouvir da funcionária que deveriam ficar contentes, pois aqueles eram os dois últimos lugares disponíveis no avião.
Chegar ao aeroporto com antecedência, carregar as malas, entrar nas filas, esperar a hora de embarcar, de fechar a porta do avião, aguardar a autorização para a partida – são alguns procedimentos de praxe. Em Cumbica, alguns voos oferecem uma dificuldade adicional nos portões 17, a, b, c. Uma sala apertada no térreo, onde muitas pessoas aguardam a chamada para pegarem o ônibus que os levará até a escada para entrar no avião. Se algum passageiro não puder se utilizar da escada e depender de equipamento especial, todos terão de enfrentar uma longa espera. Será que com a nova administradora aeroportuária esses problemas deixarão de existir?
Chegando ao destino, o comissário solicita que os passageiros permaneçam sentados até que o aviso luminoso de apertar o cinto apague e que mantenham os fones celulares desligados. De repente, a turma começa a se levantar e os telefones a tocar. Um se esconde atrás da cadeira e responde, outro fala rapidamente. O comissário fala de novo que os aparelhos devem permanecer desligados. Depois de uma espera complicada com todos querendo pegar as bagagens de mão ao mesmo tempo, a porta se abre.
Avião é coisa muito séria, exige disciplina e consideração. Os comandantes e os demais tripulantes levam em alta conta a necessidade de manter a própria saúde e a forma física para poderem trabalhar satisfatoriamente. Eles também se preparam para manter o equilíbrio emocional para estar aptos a enfrentar qualquer emergência que possa surgir, propiciando segurança e calma aos passageiros. Os controladores de voo também se preocupam com isso.
As companhias aéreas querem reduzir seus custos e aumentar a lucratividade, mas isso não deve ser feito mediante o sofrimento dos passageiros. O que está acontecendo no mundo? Todos estão tão apressados e tudo está acontecendo de forma cada vez mais rápida que não sobra mais tempo para reflexão. Estamos ultrapassando todos os limites críticos e toleráveis, inclusive no tocante à vida humana. Dessa forma, o bom senso desaparece e as margens de segurança ficam mais estreitas. A Intuição está desativada, o cérebro se cansa induzindo a erros, os quais a intuição deveria perceber prontamente lançando seu alerta e evitando acidentes.
Estamos atravessando uma fase com aumento da violência e indisciplina. Faltam talentos. Os preços estão aumentando. Mesmo recebendo aumento de salário, as pessoas percebem que podem comprar menos coisas. Poucas empresas adotam programas de participação nos resultados. Precisamos de ânimo, coragem, propósitos nobres, preparo. Uma vida mais amena.
Quem viaja de avião sente a grandeza do acontecimento. Quando o avião estabiliza no alto, com o céu azul iluminado pelo sol, pairando sobre um acolchoado de nuvens brancas, sentimos nitidamente quão maravilhoso é o milagre da vida, e chegamos a nos envergonhar das atitudes imediatistas assumidas pelos seres humanos que se deixam levar pela ganância desenfreada e lutas pelo poder e dominação. Para reverter esse panorama, necessitamos de um brado de alerta global que nos leve a repensar a finalidade da vida.

(Colaboração de Benedicto Ismael Camargo Dutra, graduado pela Faculdade de Economia e Administração da USP. Um dos coordenadores do www.library.com.br. E-mail: bidutra@attglobal.net).

 

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Leia mais na edição n° 9481, dos dias 1, 2 e 3 de dezembro de 2012.

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