As aves do terror

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Há cerca de 60 milhões de anos os dinossauros desapareceram da face da Terra. Pouco se sabe sobre esse desaparecimento, embora a teoria mais aceita pela ciência atribua à queda de um grande meteoro ao norte de onde se situa o México atualmente. Até então, eram considerados os mais vorazes predadores entre todos os animais que aqui viviam, impondo um reinado de terror inigualável.
Mas, como na natureza o espetáculo não pode parar, o fim de uma saga de medo por milhões de anos seria automaticamente seguida por outra. Desta vez, as rainhas de pena ou aves do terror seriam as protagonistas das maiores caçadas engendradas no mundo animal.

Rapidez e sagacidade
As aves do terror pertenciam a um grupo de animais que reunia pelo menos 25 espécies diferentes, cujo tamanho variava de um a três metros de altura, em sua grande maioria, com um bico em forma de gancho, o qual permitia dilacerar mais facilmente uma presa abatida.
Embora tivessem penas, não voavam. E não precisavam, pois costumavam se esconder em meio ao mato e pegar as suas presas sempre de surpresa. Corriam numa grande velocidade, cerca de 70 quilômetros por hora, lembrando alguns felinos modernos. Derrubavam as presas com os pés e as prendiam com o bico, espancando-as contra o solo até ficarem inconscientes.
Ao que tudo indica, essas aves espoliaram dos répteis o posto de predador da época do Mioceno (20 milhões de anos atrás), principalmente do celurossauro, pequeno dinossauro que caminhava sobre duas pernas e que atacava suas presas com a boca, semelhante ao procedimento utilizado pelas aves do terror. Daí imaginar que as aves são resultado da evolução dos dinossauros.

Pequenos detalhes
A arqueologia, minimalista em sua existência, sempre teve dificuldades em postar afirmações tautológicas acerca da evolução animal. É assim com a linhagem hominídea, é assim com várias outras linhagens animais. Reescrever a história da evolução pela arqueologia é mais comum do que se imagina.
Até bem pouco tempo suspeitava-se que as aves do terror haviam sido extintas por volta de 2 milhões de anos atrás. Vestígios de exemplares dessa idade foram encontrados nos Estados Unidos. Entretanto, novos fragmentos encontrados em 2011 na formação rochosa Dolores, situada nos arredores de Montevidéu, parecem estar reescrevendo a história dessa extinção.
É o que diz Herculano Alvarenga, um dos autores da descoberta evidenciada por um simples pedaço de osso do pé direito do animal de poucos centímetros, datado de 15 mil anos, apenas dois mil antes da entrada do Homo sapiens nas Américas.
Uma conclusão imediata dos pesquisadores é a de que a extinção das aves, embora possa ter tido várias causas, como a competição por alimento com novos predadores que chegavam do norte da América, por exemplo, os tigres-dentes-de-sabre e os ancestrais dos lobos, o fato é que ela foi relativamente mais vagarosa do que se imaginava.
Além disso, a possibilidade de ter havido encontro entre a ave e humanos pode não ser nula, apesar da nova descoberta não conseguir revelar o fato.
Como os trabalhos arqueológicos de campo nunca param, é possível que novas descobertas venham melhorar o conhecimento sobre o passado do mundo natural que existiu na Terra. E com ele, um entendimento mais amplo sobre a nossa própria existência.

(Colaboração de Wagner Zaparoli, natural de Bebedouro, doutor em Ciências pela USP, mestre em Ciência da Computação, professor de lógica e consultor. E-mail: wzaparoli@gmail.com).

Publicado na edição n° 9433, dos dias 4, 5 e 6 de agosto de 2012.