Inteligência precoce

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Há muitos anos assisti a uma palestra do professor Waldemar Setzer, do departamento de ciência da computação da Universidade de São Paulo, cujo tema tratava da influência da tecnologia no cotidiano das pessoas, principalmente das crianças. Professor Setzer, embora um nome de importância para o desenvolvimento da tecnologia da informação nos anos 70 e 80, sempre foi um combatente radical da tecnologia, tanto que na época da palestra (início dos anos de 1990) dizia ele não ter em casa ao menos uma televisão, o que não deixava de causar espanto à platéia, para não dizer perplexidade.
Em um determinado momento o assunto enveredou para a questão da inteligência precoce das crianças, que dispunham de televisão, videogame e computador (ainda primitivo) para seus deleites. E uma enxurrada de exemplos foi disparada ao ar: “o meu filho se desenvolveu muito rápido brincando com o videogame”, dizia um; “o meu, com apenas três anos já sabe digitar as letras no computador”, dizia outro; e assim sucessivamente vários depoimentos de pais orgulhosos delineavam o tom da conversa. Professor Setzer escutava a todos calado e atento.
Depois que o público se acalmou o professor fez a seguinte indagação: “Qual é a vantagem para a criança ter um desenvolvimento precoce? Do que vai adiantar-lhe aprender a operar um computador aos três anos, ler aos quatro e se tornar um gênio aos cinco?”.
Confesso que minha boca não se abriu para responder à questão, embora meu cérebro, empobrecido pelo excesso de tecnicismo e carente de mais filosofia, psicologia e educação, procurava a todo custo uma resposta objetiva e fulminante para “liquidar” o professor Setzer. Mas ela teimosamente não veio, nem de mim e nem de ninguém.

Crianças mais
inteligentes?
Ouvimos freqüentemente que as crianças de hoje estão mais espertas e inteligentes. Que elas têm muito mais informações que os nossos pais tiveram, não há dúvida, afinal, vivemos na era da informação.
Embora segregadas pela pobreza mundial, as crianças usam o poder da curiosidade inerente à baixa idade para surfar as ondas tecnológicas como se estivessem brincando no parque. Muitos adultos suam frio só de pensar em tecnologia, mas as crianças não.
Para responder a essa questão do subtítulo, lanço mão de um artigo da revista Scientific American Brasil, publicado em 2004, que versa sobre o tema da inteligência infantil. Nele são revelados estudos comparativos de testes de inteligência aplicados em crianças brasileiras em diferentes ocasiões.
O primeiro teste foi aplicado em 1930 em escolas de Belo Horizonte por Helena Antipoff, pesquisadora russa responsável pela criação da Sociedade Pestalozzi. O segundo teste foi aplicado em 2002 também em escolas públicas de Belo Horizonte por Carmen Flores-Mendoza, professora do Laboratório de Diferenças Individuais da Faculdade de Psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais.
A própria professora Flores-Mendoza se encarregou de comparar os resultados dos testes realizados em 1930 com os resultados obtidos em 2002. Ignorando aqui os detalhes técnicos (embora sejam fundamentais para as análises), Flores-Mendoza chegou à conclusão de que as crianças de hoje ganharam 10 pontos a cada cinco posições percentílicas. Em outras palavras, as crianças de hoje estão mais inteligentes do que aquelas de 1930.
Esses resultados na verdade não são surpreendentes, visto que estudos realizados pelo pesquisador neozelandês James R. Flynn em 25 países afirmam que a média mundial de crescimento de inteligência se dá em 15 pontos de QI a cada 30 anos.
Mas ainda não está definitivamente claro quais são as causas reais desse crescimento, ou seja, se são influência do meio ou se são ganho biológico. Alguns pesquisadores afirmam que a melhora da alimentação e das condições de vida da população contribui fundamentalmente para o crescimento da inteligência ao longo do tempo. Outros, como o próprio Flynn, apostam no aumento da industrialização.
Divergências à parte, o fato é que a percepção popular sobre a esperteza e a inteligência aguçadas das crianças é corroborada pelos dados científicos e a nós resta entender os seus impactos. Um deles é evidente: o problema em sala de aula. Crianças rápidas pedem professores velozes. Infelizmente não é isso que está acontecendo. Aos professores falta quase tudo: motivação, reciclagem, salário digno e material didático. Não nos parece ser uma disputa justa para os professores.
Essa hipocrisia eleitoreira que envolve a educação tem que terminar em nosso país. Estejamos vivos e atentos a isso. Restaurar as políticas educacionais é um dever do estado. Restaurar o respeito e a dignidade do professor é um dever de todos! Um dia certamente as nossas crianças vão agradecer.

(Colaboração de Wagner Zaparoli, doutor em ciências pela USP, professor universitário e consultor em tecnologia da informação).

(…)

Publicado na edição 10389, de 24, 25 e 26 de abril de 2019.