Larissa Eduarda Lemos: Tão jovem e já consciente de seus direitos

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Natural de Bebedouro, Larissa Lemos tem 13 anos e é de uma família bem humilde. Estudante no Educandário Santo Antônio, ela poderia ser uma criança como outra qualquer, se não fosse sua preocupação com o desenvolvimento das crianças e adolescentes não somente que a rodeiam, mas também do Brasil. Em julho, o Educandário irá representar o Estado de São Paulo, em Brasília através de Lemos. Ela que já representou a instituição na Conferência Municipal Lúdica dos Direitos Humanos da Criança e do Adolescente, foi eleita para representar Bebedouro na Conferência Regional e, depois, na Estadual, onde foi eleita para representar o Estado de São Paulo, em Brasília. Para a capital federal, Lemos levará todo seu conhecimento e experiência, na busca da garantia dos direitos de crianças e adolescentes.

 

Futuro promissor – “Não quero ficar só como advogada, quero prestar concurso e ser juíza!”.

GB – Onde nasceu? E quando?

Larissa – Nasci em Bebedouro, no dia 26 de março de 1999.

GB – Sempre morou aqui?
Larissa – Sim, já morei no Jd. Centenário e agora estou no Residencial Furquim.

GB – Desde quando estuda no Educandário Santo Antônio? Em que série você está?
Larissa – Desde a 1ª série, hoje estou na 7ª série.

GB – Onde estudava antes de entrar no Educandário?
Larissa – Na Casa da Irmã Crucifixa

GB – Como é seu dia-a-dia?
Larissa – Acordo às 6h30m, faço minhas coisas em casa, e tenho que estar na escola às 7h. Aqui (Educandário) a rotina é normal todos os dias, temos quatro aulas embaixo, os intervalos, ao meio-dia a gente sobe e aqui temos nossas oficinas. Saio daqui às 18h, porque participo dos projetos, o horário normal mesmo é às 16h. Quando chego em casa, eu estudo, de vez em quando ajudo minha mãe…

GB – Tem alguma disciplina pela qual você tenha preferência? Por quê?
Larissa – Português. Gosto muito de escrever, da leitura, e é onde acabo me destacando mesmo!

GB – Com quem você mora?
Larissa – Com minha mãe, meu padrasto e meus quatro irmãos, somos três meninas e dois meninos, e eu sou a mais velha.

GB – Os pais, o que fazem?
Larissa – Minha mãe se chama Michele, é cabeleireira, tem um salão em casa mesmo. Meu padrasto é metalúrgico, o Osmar.

GB – E seu pai?
Larissa – Minha mãe se separou dele quando eu tinha um ano, mas a gente tem contato, passo os finais de semana com ele. O nome dele é Gustavo e trabalha como caminhoneiro.

GB – Como é seu relacionamento com sua mãe e seu padrasto?
Larissa – Com meu padrasto não é tão bom, mas com minha mãe tenho um relacionamento ótimo.

GB – O que dificulta sua relação com seu padrasto?
Larissa – Pelo fato de ele não ser o pai, coisa que acontece mesmo.

GB – E como é sua relação com as amizades no Educandário?
Larissa – Tenho bastante amigas, mas são poucas aquelas com quem eu fico junto todos os dias, converso com a classe toda, são 23 alunos!

GB – Em julho deste ano, você representará o Estado de São Paulo em Brasília, durante a 9ª Conferência Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente. Mas, antes disso, você representou o Educandário, na Conferência Municipal Lúdica dos Direitos Humanos da Criança e do Adolescente. O que foi debatido nessa conferência? Quando aconteceu?
Larissa – Foi no ano passado, na Câmara Municipal. Depois separava em grupos por idade para discutir e apresentar as propostas. Foi debatido bastante a respeito da falta de comunicação dentro do Conselho Tutelar, entre as conselheiras, isso estava dando uma interferência no ECA, ela não estava garantindo os direitos previstos pelo ECA, como por exemplo denúncias que não eram levadas para frente. Depois das propostas desenvolvidas, tinha que ir lá na frente apresentar, e ninguém queria! Aí falei: eu vou, e fui! Entre as propostas houve uma sobre o melhor desenvolvimento do Redeca (software voltado para o auxílio na formação de redes sociais de proteção à criança e ao adolescente); sobre a necessidade de mais profissionais na Saúde, porque a gente vai com uma criança a um atendimento médico nos hospitais públicos, e há muita demora na fila de espera, a criança fica irritada, chora…; outra proposta também é a necessidade de opções de lazer, esporte nas quadras, natação, algo desse tipo, para garantir o nosso desenvolvimento.

GB – Em seguida você foi eleita para representar Bebedouro na Conferência Regional e depois na 5ª Conferência Estadual Lúdica dos Direitos Humanos da Criança e do Adolescente, ocorrida no mês de maio, em Serra Negra (SP). Recentemente você afirmou que foi muito importante sua participação no município e na região e que na Conferência Estadual levou seus argumentos e sua experiência. Por que essa participação foi importante? De que forma essa Conferência Estadual contribuiu para vocês?
Larissa – Porque eu participei desde aqui, na nossa cidade, depois fui para a regional, em Barretos… Então levei um pouco de casa, assunto que ocorreu nas duas. Lá conseguiram passar bastante coisa para a gente, puderam envolver mais os jovens…

GB – Daqui a um mês e meio você estará em Brasília, na 9ª Conferência Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente. Por que você foi escolhida para representar o Estado?
Larissa – Fomos quatro adolescentes da região de Barretos, na hora de escolher, a gente se juntou, falou sobre as propostas que levaríamos para lá, os motivos, e gostaram. Votamos entre a gente mesmo, e eu fui escolhida.

GB – O que você está planejando para o evento?
Larissa – Pretendo levar o conhecimento de cada conferência pela qual passei, dar meu melhor, participar o máximo que eu puder.

GB – Em dezembro de 2007, a jovem Marciele Pilarski de Souza, então com 14 anos e educanda do Educandário Santo Antônio, representou a região de Barretos e também o Estado de São Paulo na 7ª Conferência Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, realizada em Brasília. Você teve a oportunidade de conhecê-la? Chegaram a trocar idéias sobre este assunto?
Larissa – Não conheci, fiquei sabendo dela, foi me passado que ela conseguiu e passou para as conferências regional, estadual e federal, mas não tive a oportunidade de conhecer.

GB – Como você vê, em Bebedouro, as práticas dos Direitos da Criança e do Adolescente? Isso ainda é um grande problema a ser resolvido? E no Brasil?
Larissa – Aqui em Bebedouro não tem tantos problemas, na minha visão. O Conselho Tutelar aqui é bastante efetivo, desenvolve um bom trabalho. Mesmo assim temos que lutar, porque se aqui não está acontecendo, lá fora está. O ECA tinha que ser mais reforçado, divulgado, porque ele existe, mas tem lugar que ele não é praticado a fundo.

GB – De que forma a sociedade pode combater a exclusão e a violação dos direitos?
Larissa – Deveria haver uma preocupação maior, é o que falo, as pessoas sabem que existe o ECA, a lei para as crianças e os adolescentes, mas elas ficam acomodadas. Sabem que os problemas estão aí, acontecendo, mas não tomam atitude nenhuma, poderia ajudar com uma denúncia pelo menos.

GB – E o Educandário, como trabalha nesse sentido?
Larissa – Ele tem a Formação Cidadã, todos aqui do Educandário participam. Lá é passado como devemos agir em cada fase da vida, e aí entram vários temas, como uso de drogas, prostituição infantil…; tem o nosso grupo também, o Ação Jovem, onde fazemos ações que, por enquanto, estão dentro da escola, onde tratamos sobre esses temas, promovemos ações para a escola, como a da cantina, do dinheiro. Uma vez na semana tem essa cantina, a gente traz a reciclagem e é trocada por ‘mec’, uma moeda ecológica. Depois, a gente vende essa reciclagem e com o dinheiro a gente repõe a cantina, tem salgados, guloseimas…; e o Juventude Consciente, um teatro no qual pegamos esses temas e lavamos para outras escolas, é uma conscientização. Um dos teatros foi sobre a Araceli (menina estuprada e morta aos 8 anos), e ela vinha em forma de anjo e falava com o público. No final da apresentação uma menina de 8 anos chegou até ela e falou que sofria abuso sexual dentro de casa. Isso enriquece nosso grupo, por mostrar lá fora esse problema, conscientizar as pessoas, é de grande importância.

GB – Você tem amigos dentro da entidade que passam por problemas ou em casa, ou na sociedade, relacionados à essa violação de direitos? Como se sentiu?
Larissa – Tenho uma amiga que sofria em casa, o abuso sexual do padrasto. Então, ela chegava, pedia ajuda, mas com medo, e eu tentava passar para ela algumas coisas, para ela ficar mais calma e ir perdendo o medo. Ela tinha que ver que tem uma lei que existe, esse abuso não podia acontecer e seria resolvido, precisava buscar uma assistente social para que a ajudasse. Eu fiquei constrangida, ainda mais por saber que existe uma lei para isso, foi um impacto.
GB – O que você quer ser quando crescer? Qual carreira seguir?
Larissa – Quero ser advogada. Desde quando eu era pequena e tinha poucos conhecimentos sobre advocacia, eu já achava muito legal. Acho muito interessante os advogados poderem trabalhar diretamente com as leis… Não quero ficar só como advogada, quero prestar concurso e ser juíza!

GB – De que forma essa sua atuação hoje, nas conferências pode lhe ajudar?
Larissa – Entre tantas pessoas, eu prego meu ponto de vista, tenho minha participação… Cada vez mais tenho conhecimento, discernimento do que é certo e errado, dos direitos e deveres, isso vai me ajudando.

GB – A Simone Alencar, coordenadora da Artsol, entrou como aluna do Educandário aos quatro anos de idade, e só saiu quando tinha quase 19 anos. Em entrevista ao Gente, em dezembro de 2011, ela afirmou que o Educandário foi essencial para a existência da Artsol. E que hoje, ela é o que é devido ao Educandário, por ter lhe recebido com braços abertos, criado, dado a ela toda a atenção que uma criança necessitava, e que havia fortalecido dentro dela uma “vontade louca de vencer”, de superar todos os seus sofrimentos e desafios. E o que o Educandário representa para você?
Larissa – É uma casa, a maior parte do tempo eu passo aqui. No Educandário você é acolhido quando está bem e quando está mal. Aqui dentro é passada tanta coisa que fica marcado e você leva para a vida toda, como por exemplo nossa convivência. Aqui temos uma boa convivência, então, quando chego em casa, posso passar esse jeito de conviver do Educandário aos meus irmãos, à minha mãe… É um ciclo.

GB – Em maio a Câmara Municipal aprovou uma moção de aplausos, de autoria dos vereadores José Baptista de Carvalho Neto, o Chanel (PDT) e do Valdeci Ramos de Castro, o Sensei (DEM), a você pelo “brilhantismo” na sua participação e defesa das suas propostas referentes ao tema “mobilização, a implementação e o monitoramento da Política e do Plano Decenal de Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes”. Como recebeu essa notícia?
Larissa – Quem me contou foi a Maria Alice (Alves Coelho, presidente da Rede Criança e Adolescente), senti uma felicidade, por lá na frente poder parar e pensar: nossa, eu tive essa participação e hoje essas políticas estão funcionando, foram além.

GB – O que costuma fazer quando não está estudando?
Larissa – Gosto de ler suspenses. Tem um livro que li faz tempo, não é de suspense, mas gostei muito, que é A Bolsa Amarela, da Lygia Bojunga, nossa, é muito legal! É um livro que não esqueço, é uma aventura, muito bom.

GB – Você pratica a leitura em casa?
Larissa – A escola tem um biblioteca e muitos livros, então a gente faz a nossa carteirinha, pega e leva para casa.

GB – O que mais você faz?
Larissa – Gosto de ficar no computador, nas redes sociais, como o Facebook…

GB – Do que você mais gosta em Bebedouro? E do que menos gosta?
Larissa – Gosto muito de passear, ir ao Lago às sextas ou sábados à noite, mas em Bebedouro gosto mais da praça da Matriz, acho legal o ambiente à noite e durante o dia também. Não gosto de um bairro daqui, o Santa Terezinha, tenho parentes lá, mas o bairro não tem muitas opções de lazer, não tem praças…

GB – O que precisa ser melhorado na cidade?
Larissa – O lazer para adolescentes da minha idade, lugares para freqüentarmos com monitoramento, para passarmos o tempo nos finais de semana. Nós vamos ao Lago, mas ali você vai, conversa com um amigo, uma amiga, mas não tem o lazer que a gente precisa.

GB – E os Centros Sociais Urbanos? O que pensa deles?
Larissa – Deveriam estar trabalhando com mais força em cima disso, existem as quadras mas precisa de projetos maiores, porque do jeito que estão hoje não são algo tão interessante apara os adolescentes e jovens, e isso prejudica eles. Por exemplo, tem o Muro de Berlim (região do Lago), aí eles não têm lugar nenhum para ir, então não vai despertar o interesse deles para irem lá? E lá rola bastante droga, bebidas e pouco policiamento.

GB – Gostaria de deixar uma mensagem às crianças e adolescentes de Bebedouro?
Larissa – Existe uma lei na qual tem nossos direitos, então, minha mensagem é que procurem saber mais sobre ela, ter mais conhecimento, para que possamos agir mais em cima disso com sabedoria. Precisa sair um pouco desse zero em que a gente está para transformar em algo grande, para isso precisamos ter inteligência, interesse. Em Bebedouro, não falta a vontade em adolescentes de levantar a voz e cobrar seus direitos, mas há sim a falta de conhecimento.
 
Publicado na edição n°9408 dos dias 2, 3 e 4 de junho de 2012.