O degelo tropical

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César Lattes (1924 – 2005), um dos maiores físicos brasileiros, nascido em Campinas, certa feita precisou viajar para a Bolívia a fim de realizar experimentos que confirmassem a existência de uma partícula física que havia sido prevista em 1935 pelo pesquisador japonês Hideki Yukawa. O ano era 1947 e a localidade dos experimentos ficava a 5.300 metros de altitude no monte Chacaltaya, um dos picos da Cordilheira dos Andes, distante 30 km ao norte da cidade de La Paz.
Embora pequena, Chacaltaya se transformou em uma geleira internacionalmente conhecida, não só pelo fato de ser palco da revelação da existência de uma nova partícula, o méson-pi, mas também por abrigar por muito tempo a pista de esqui mais alta do mundo. Orgulho para os bolivianos, Chacaltaya passou a fazer parte dos principais roteiros turísticos internacionais, trazendo para a região muitos
estrangeiros.

Sumindo do mapa

Ao longo dos anos, mais acintosamente a partir dos anos de 1970, Chacaltaya começou a sofrer um processo de desgaste frente ao aquecimento do clima da região. Tal desgaste provavelmente está ligado às mudanças climáticas no planeta resultado das atividades humanas, como afirma o IPCC – Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas. Trata-se do dito aquecimento global que já levou a discussões calorosas os grandes líderes mundiais, como Estados Unidos, Alemanha, China e Inglaterra, entre outros.
O fato é que a geleira Chacaltaya literalmente desapareceu do mapa. Em outras palavras, virou água e deixou os bolivianos sem a famosa e mais alta pista de esqui do mundo. Pior do que isso, boa parte das pequenas geleiras da região andina estão no mesmo caminho. Para se ter ideia, atualmente as geleiras ocupam cerca da metade da área que ocupavam na metade do século passado. A manter-se o índice de elevação da temperatura global, em poucos anos as geleiras tropicais farão parte da triste história de seu completo desaparecimento.

Prenúncio da estiagem

A Bolívia não é o único país a ver suas geleiras encolherem. Ali ao lado no Peru onde se situa a maior parte das geleiras tropicais – cerca de 70% – também tem sido observado o gelo virar água. Nas últimas quatro décadas as geleiras peruanas encolheram cerca de um quarto de sua área original (anterior aos anos de 1950).
O que é espantoso nesse processo é a rapidez com que as geleiras estão sumindo. Sabe-se que a temperatura na região andina subiu 0,8 grau durante o último século, mas provavelmente o efeito El Niño, que aquece a água da superfície do oceano Pacífico e impede que a umidade vinda da Amazônia chegue à região e provoque a precipitação da neve, seja o grande vilão da história.
Ocorre que as geleiras andinas são as únicas responsáveis por alimentar a produção de energia elétrica das cidades, por manter a agropecuária da região e dar conta do consumo humano pela água potável. Somente as cidades de La Paz e El Alto na Bolívia somam 1,5 milhão de pessoas. Embora até o momento não tenha havido qualquer indício de redução de fornecimento de água, projeções indicam que em poucas décadas a população deverá se preparar para viver uma relação minguada com o meio-ambiente, em especial, a redução drástica da abundância de água.

Impactos maiores

Se a falta d’água pode ser um problema futuro para os andinos, o excesso dela também. Com o derretimento acelerado das geleiras, tem se formado inúmeros lagos nas bases das montanhas que reúnem potencial perigo às comunidades dos vales próximos. O rompimento de qualquer um deles poderá provocar desastres de grandes proporções. Foi o que ocorreu com um lago que se formou na base da geleira Quelccaya nos anos de 1970 e acabou por se romper e destruir toda a pastagem de Lhamas de uma comunidade local. Se a região fosse um pouco mais urbanizada, a tragédia poderia ter sido muito maior (lembram-se dos mais de 230 mil mortos no tsunami do oceano
Índico?).
Independentemente das causas do desaparecimento das geleiras andinas, o fato é que as conversações sobre as mudanças climáticas definitivamente deveriam levar os países a repensarem suas emissões de gases de efeito estufa, dos quais ainda não temos a certeza das consequências sobre o nosso planeta. Estamos vivendo há muito tempo somente de promessas, mas até quando conseguiremos?

Publicado na edição nº 9877, dos dias 13 e 14 de agosto de 2015.