O parasita dissimulado

Wagner Zaparoli

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O tema desse artigo bem que caberia a diversos políticos do nosso país, mas não pretendo chatear os leitores com um assunto tão frívolo. Falemos então de saúde pública (sic!).
O Brasil embora faça investimentos nesse setor, o faz às mínguas, como na educação, cultura e transportes, para citar apenas alguns. O resultado desse descaso atinge diretamente a população de menor renda, que sem recursos para se alimentar decentemente, adoece e morre nas infinitas filas de hospitais e postos de saúde. Mesmo em regiões mais desenvolvidas, como a Sudeste e a Sul, inúmeras doenças infecciosas afloram com violência inigualável, arrebatando vítimas muitas vezes de forma fatal, como aconteceu em 1997 quando o sarampo, doença hoje considerada extinta, atingiu mais de 2.300 pessoas e matou 23.
Esse é apenas um exemplo da fragilidade da saúde do país e de seus cidadãos (se é que podemos usar essa expressão para caracterizar os sofridos brasileiros). A pandemia de Covid-19 que o diga.
Mas falemos do parasita dissimulado, o cisticerco (e já aviso que se houver algum político com esse nome é mera coincidência).

Cisticerco, o parasita
O cisticerco é uma larva adquirida pela ingestão de alimentos contaminados com os ovos da Taenia solium que se instala e ataca o sistema nervoso central do ser humano. Por isso, muitas vezes, a doença é denominada de neurocisticercose. Em algumas regiões do país a doença é endêmica e do total de vítimas, cerca de 15 a 25% não conseguem sobreviver.
Como não existe obrigatoriedade de notificação dos casos encontrados à Vigilância Sanitária, o quadro endêmico tende a se tornar mais grave, pois sem informação, a Vigilância pouco pode fazer para estabelecer um plano de contenção da doença.
Vejamos o exemplo do estado do Piauí. Antes de 1999, ele não constava do mapa de incidência da moléstia do país. Entre 1999 e 2001, uma equipe de pesquisadores liderada por Alberto Novaes Júnior, do Depto de Saúde Comunitária da Universidade Federal do Ceará, fez uma grande pesquisa no município de João Costa, região muito pobre contando com três mil habitantes. Como era previsto, 169 pessoas com sintomas da neurocisticercose foram identificadas e dessas, 27 apresentaram os anticorpos contra o cisticerco.
Um outro exemplo vem de Santa Catarina. Em 1990 foram realizados mais de 140 mil exames de tomografia computadorizada, dos quais 1,2% registrou positivo à neurocisticercose. Num universo mais específico da região, a incidência chegou a 30%.
A conclusão é óbvia: a doença existe de fato e poucos têm conhecimento de sua existência e sabem como se precaver contra a moléstia. Daí a expressão “dissimulado” para o parasita cisticerco.

Evidenciando o dissimulado
Parte dos problemas relacionados às endemias de cisticercose no país se dá em função da pouca eficiência dos métodos atuais de detecção da moléstia. Outra parte se dá em função da pobreza da população. Quanto a esta última, pouco pode fazer a ciência diretamente, mas em relação à primeira parte, a ciência e a tecnologia podem e devem contribuir para que os diagnósticos sejam mais precisos e eficazes, evidenciando assim a triste mas real imagem da doença no país.
Hoje existem testes capazes de detectar anticorpos produzidos contra o invasor, mas nenhum deles consegue atestar ou excluir a doença de fato. Normalmente os testes precisam da ajuda de exames de ressonância magnética ou tomografia computadorizada que evidenciam cistos de forma precisa, mas a um custo proibitivo à maioria da população.
A genética vem nos últimos tempos acenando com possibilidades melhores e mais baratas. Uma equipe do Laboratório de Neurociências da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) demonstrou pela primeira vez que o DNA do invasor está presente no líquor, o líquido que envolve o cérebro. A experiência reuniu 30 pacientes com neurocisticercose que se submeteram ao novo teste criado pela equipe. Desses, 29 foram detectados com uma sensibilidade de 96,7%, o que atesta a boa capacidade do teste.
Além disso, mas ainda distante de uma utilização prática, estudos estão sendo conduzidos com o intuito de criar-se uma vacina capaz de bloquear o ciclo da teníase e da neurocisticercose nos hospedeiros. O obstáculo para a implementação desse projeto é o seu custo elevado.
Mas enquanto a ciência e a tecnologia não têm uma solução definitiva para o problema, cabe à população entender as razões da doença e se precaver: no caso da neurocisticercose é imprescindível que se tome o máximo de cuidado com a alimentação. A escolha de uma origem confiável dos alimentos pode ser o salvo conduto para uma boa e eterna saúde.

(Colaboração de Wagner Zaparoli, doutor em ciências pela USP, professor universitário e consultor em tecnologia da informação).

 

Publicado na edição nº 10515, de 2 a 4 de setembro de 2020.