O patriotismo e o nacionalismo…

Lucas Simões Sessa

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São traços muito importantes da posição conservadora no mundo todo. Historicamente, exaltações ao hino nacional e à bandeira do país, por exemplo, aparecem relacionadas a manifestações situadas à direita do espectro político-ideológico. No caso específico do Brasil, chamam a atenção algumas peculiaridades, que até chegam a parecer contraditórias e aberrantes. Talvez possamos entendê-las um pouco melhor, no entanto, identificando suas nuances e levantando algumas questões a respeito delas.

Digo isso porque o patriotismo tipicamente brasileiro parece não gostar do próprio país que tanto enaltece. Muito pelo contrário, se dedica com esforço a atacá-lo e depreciá-lo. Nossos patriotas não gostam de nada que tenha a ver com samba, nordeste, índio, áfrica, negro, cultura popular e natureza. Como falar do Brasil sem tudo isso? Deve ser algum outro Brazil made in USA…

Critica com veemência os principais nomes da música brasileira e de outros campos artísticos, menospreza a importância das instituições e leis de incentivo à cultura, trata como se fosse baderna as expressões e festas populares que tanto dizem das tradições e identidades nacionais.

O conservador brasileiro defende também a extinção das populações indígenas, filhas legítimas e primogênitas deste solo, pede que suas terras não sejam demarcadas e sim tomadas, para dar lugar a um agronegócio de intenções muitas vezes vorazes e práticas frequentemente predatórias. Brada de maneira retumbante o hino nacional, com a mão no peito e os olhos marejados, enquanto dá voz ao desmatamento irresponsável e criminoso de campos não mais risonhos (e com bem menos flores), endossando uma exploração insustentável dos nossos bosques, que já não têm mais tanta vida assim.

Assistem calados a crimes ambientais gravíssimos que têm por consequência a perda por tempo indeterminado de rios e mares, comprometendo toda a vida e a diversidade que eles abrigam, e ameaçando todas as pessoas que deles dependem. No que for necessário contar com tais patriotas, as margens do Rio Doce, por exemplo, jamais serão plácidas novamente.

Aceitam, através do governo que os representa, que se continue emitindo os poluentes responsáveis pela “feia fumaça que sobe apagando as estrelas” de um céu não mais risonho e límpido, no qual a imagem do Cruzeiro já não resplandece faz tempo.

O som do mar e a luz do céu profundo parecem lembrar regiões das quais gostariam de se separar cartográfica e economicamente, onde vive um povo visto por eles como preguiçoso e parasita que, dizem, fica deitado eternamente em berço esplêndido graças a bolsas do governo, sem produzir nenhuma riqueza que aqueça a economia do país e contribua com a construção de um futuro que espelhe essa grandeza.

Parecem negar toda a contribuição destas mesmas pessoas e regiões do país com a música, a literatura, o pensamento filosófico e sociológico, a educação, o turismo, além da criação e transmissão da cultura popular. Aliás, eles não valorizam mesmo nada disso. Pelo menos não aqui. Idolatram e salvam uma definição de pátria amada que deixa de fora a maior parte das pessoas que vivem no Brasil e que ataca os costumes e as tradições que historicamente mais nos definem enquanto povo.

Através de propostas como a de armar a população civil e a de patologizar a diversidade de gênero, apoiam vigorosamente o aumento de uma violência que vitima sempre os mesmos grupos, também filhos de um Brasil que está longe de ser símbolo de amor eterno. Minorias cuja vida, no seu seio, parece ser motivo de profundo ódio e não valer nada.

Incentivam a precarização do ensino público, reduzindo à dimensão de balbúrdia toda a experiência potente e transformadora promovida pelas universidades, e defendem a privatização de dispositivos que, a duras penas, ainda possibilitam alguma brecha para que se possa, minimamente, combater o desequilíbrio de oportunidades que perpetua um quadro de acúmulo de renda inédito no mundo, o que só é possível ainda justamente por serem gratuitos. O tal braço forte, que supostamente conseguiu conquistar o penhor dessa igualdade, dá lugar, na prática, à mão invisível de um neoliberalismo que só faz aprofundar as terríveis e inaceitáveis desigualdades que existem por aqui. Em teu seio, ó liberdade, eles pedem a volta da ditadura militar.

A experiência patriótica brasileira parece se ancorar na recusa da própria identidade. Na ilusão fanática e teimosa de um sonho intenso que ama um país inexistente, enquanto despreza e agride o que de fato se apresenta. Talvez não seja só aqui que isso acontece, e essa negação da diferença, combinada a um discurso cínico, esteja na base desse pensamento em um contexto mais abrangente. É razoável supor que sim.

O papel do hino nacional na composição desse posicionamento parece estar mais relacionado ao que ele representa de protocolar e cerimonial, com sua presença histórica em atos oficiais militares e do governo, do que propriamente com aquilo que ele transmite. É importante notar e apontar, porém, que esse discurso dele se apropria também de modo a negá-lo e descaracterizá-lo em sua essência, em um movimento que parece ilustrar toda sua lógica.

De todo modo, o que se enaltece é um ideal importado e estereotipado que desconsidera radicalmente a própria história em suas raízes mais profundas e sólidas, a um ponto em que sequer conseguem se escutar no que cantam ou, ao menos, que os possibilita prosseguir com uma encenação absolutamente hipócrita e vulgar, que precisa ser percebida e entendida enquanto tal.

(Colaboração de Lucas Simões Sessa, psicólogo)

Publicado na edição 10.608, de 11 a 14 de setembro de 2021.