Os legados dos políticos e dos executivos

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Marcos Morita

A coligação entre Marina Silva e Eduardo Campos trouxe novidade, movimentação e um pouco de graça a uma eleição cujo resultado já era previsto e conhecido, repetindo os últimos pleitos presidenciais onde tucanos e petistas se digladiaram, comparando gestões passadas, ao invés de propor soluções aos velhos problemas que insistem em nos manter como país do futuro. Põe também certa pressão em Dilma que após três anos de mandato ainda não deixou um legado pelo qual possa ser lembrada.
Getúlio Vargas, Juscelino, Collor, FHC e Lula deixaram sua marca. Criação da CLT, construção de Brasília, abertura do mercado para importações, Plano Real e a ascensão das classes menos favorecidas, seguindo a ordem de citação. Peço desculpas antecipadamente caso tenha esquecido outros governantes, assim como se omiti alguns ou vários de seus deslizes. Otimista, tentei enxergar o lado cheio do copo, mesmo que com certo grau de discordância em certos casos.
Dilma, por outro lado, tem ainda muito pouco ou nada a mostrar: obras atrasadíssimas, inacabadas ou mal começadas dos PACs, influência excessiva do estado na economia, fuga de investimentos e investidores externos, inflação no teto da meta, marcos regulatórios confusos, destruição do valor da Petrobrás, entre outros. Não obstante a fraca entrega, resultante de uma gestão pobre e sem objetivos, goza ainda de altos índices de popularidade, consequência dos legados deixados por seus antecessores.
E já que estamos falando no que Dilma deixou de fazer, queria que parasse por um momento e pensasse: Qual é o seu legado? Que ações faria, caso tivesse apenas mais um ano para deixar sua marca?
Para ajudá-lo, trago uma definição que gosto bastante: legado pode ser definido como alguém é lembrado e que contribuição fez enquanto estava vivo. Tê-lo o ajudará na definição de seu foco e de suas prioridades, canalizando suas energias. Saber que se dispõe de mais de quatro ou oito anos para deixá-lo, assim como não será lembrado em livros de história atenua um pouco a missão, porém deixá-lo ao Deus dará poderá gerar um sentimento de vazio quando a melhor idade chegar.
Conheço pessoas que colocam todo o foco em sua carreira, mirando cargos e os benefícios decorrentes: sala fechada, secretária, vaga na garagem, carro zero quilômetro e bônus no final do ano. Trabalhar até altas horas e durante os finais de semana, deixar a família em segundo plano, esquecer os amigos, descuidar da saúde, atropelar os colegas, ter atitudes egoístas e dar uma puxadinha de tapete de vez em quando poderão ajudá-lo em sua escalada, porém não contribuirão na construção de seu legado.
Poucos se lembrarão de você como o gerente ou o diretor que criou uma estratégia inovadora de vendas, desenvolveu novos clientes, bateu as metas durante quatro anos seguidos, cortou os custos em 30% ou diminuiu o prazo de entrega pela metade. Em épocas de empregos menos estáveis e menor fidelidade entre as partes, será muito provável que o próximo ocupante de sua cadeira fará questão de tudo mudar, estabelecendo seu novo legado e desligando aqueles que lhe eram mais fiéis.
Todavia não se desespere caso ainda não o tenha claro. Na urgência do dia a dia muitas vezes vendemos o almoço para comprar o jantar, correndo atrás de objetivos de curtíssimo prazo que nos impedem de enxergar quais adjetivos gostaríamos de ser lembrados: leal, amigo, desprendido, sincero, companheiro, caridoso, criativo, inteligente, bem humorado ou talentoso. Voluntariar, ensinar, dar, doar, oferecer e presentear são palavras que podem sugerir alguma dica.
Voltando a política, assim como os políticos, não conseguimos separar totalmente a vida pública da privada, construindo nosso índice de aprovação ou rejeição muito além do período de mandato ou campanha, através dos relacionamentos cultivados nos mais diversos papéis: chefe, colaborador, colega, pai, marido, amigo, voluntário, líder ou empreendedor. Em síntese, serão as memórias destes encontros, breves ou longos, intensos ou fugazes, positivos ou menos positivos, que formarão a visão compartilhada de sua imagem, representando em última instância o seu legado.
Enfim, desejo boa sorte ao próximo governante e que consiga deixar sua marca positiva, já que até dezembro do próximo ano nada mais ocorrerá além de futebol e palanque. Da mesma forma que acontece em todo ano eleitoral.

(Colaboração de Marcos Morita, mestre em Administração de Empresas, professor da Universidade Mackenzie e professor tutor da FGV-RJ. Especialista em estratégias empresariais, é colunista, palestrante e consultor de negócios).

Publicado na edição nº 9611, dos dias 17 e 18 de outubro de 2013.