Povoado de Areia: origens, a estação ferroviária e o declínio

José Pedro Toniosso

0
80
Estação Ferroviária de Areia - Na década de 1940 se tornaria a Estação de Santa Irene.

Areia é um dos dois povoados que se localizam no município de Bebedouro, sendo o outro o de Andes, além dos distritos de Botafogo e Turvínia. Como povoado rural, caracteriza-se como uma área em que se formou um pequeno núcleo de habitantes, sem autonomia administrativa, e que se localiza a cerca de nove quilômetros do centro do distrito sede.

As origens do Povoado relacionam-se com o processo de ocupação da região em que se formou o município de Bebedouro no final do século XIX, considerando a expansão de áreas produtoras de café e de gado leiteiro.

Desta forma, conforme Eugênio Oliveira Silva, consta a existência em 1885 dos primeiros proprietários rurais na região do futuro bairro de Areia: Paulino Lopes de Oliveira, Martins Fontes e Manoel Marques.

O avanço da cafeicultura na região de Bebedouro resultou na intensificação da migração com a chegada de famílias de diversas origens, especialmente mineiros e baianos, algumas com recursos suficientes para investir na compra de terras, enquanto outras ampliavam a oferta de mão-de-obra para a produção agrícola.

Com o crescimento populacional no bairro e adjacências, surgiu a necessidade de provê-lo do ensino elementar, o que fez com que em 1896 fosse criada uma escola mista em Areia, por meio de lei municipal assinada pelo intendente da Vila de Bebedouro, Dr. Manoel Colaço Brandão Veras. Pouco depois, em 1898, é criada mais uma escola de ensino primário, mas apenas para o sexo masculino, conforme decreto do Congresso Legislativo do Estado de São Paulo.

A consolidação da cafeicultura na região de Areia despertou o interesse da empresa Estrada de Ferro São Paulo – Goiás em incluir uma estação naquele local, quando da construção da nova linha que promoveu a ligação do trecho entre Bebedouro e Ibitiuva. Inaugurada em 1916, a estação facilitou o escoamento da produção agrícola e o transporte dos moradores do local até a cidade de Bebedouro, intensificando o comércio e possibilitando o acesso à continuidade dos estudos aos mais jovens.

No início de 1927, de acordo com Ralph Mennucci Giesbrecht, a linha ferroviária que incluía a estação de Areia foi vendida à Companhia Paulista de Estradas de Ferro, que promoveu a retificação do trecho e o alargamento da bitola, transformando-a em parte da linha tronco Rincão – Barretos.

A importância do café naquele período pode ser constatada pelo volume transportado, pois de acordo com relatório da Companhia Paulista de Estradas de Ferro, em 1928 a Estação de Areia foi responsável pelo transporte de 138.940 quilos do produto.

Na década de 1940, a Estação de Areia passou a se chamar Santa Irene, nome de uma das principais fazendas da região, formada pelo Cel. Abílio Alves Marques no início do século XX. A mudança do nome da Estação possivelmente relaciona-se à pujança deste fazendeiro que, segundo Silvio Carlos Bray, foi o maior produtor de café do município de Bebedouro nas primeiras décadas daquele século, sendo que em 1929 possuía mais de um milhão de pés de café em suas propriedades agrícolas.

De acordo com a publicação Bebedouro, em Revista, de 1949, a Fazenda Santa Irene contava com novecentos alqueires e sua sede ficava a cerca de um quilômetro da Estação de Areia. Na época, possuía uma colônia com 130 famílias, que se dedicavam aos cuidados de cerca de quinhentos mil pés de café e vinte mil laranjeiras, entre outras culturas agrícolas, além de mil e quinhentas cabeças de gado.

A decadência do transporte ferroviário no país fez com que a linha que atendia Areia fosse desativada, o que resultou na demolição da estação no ano de 1984, sobrando apenas a plataforma e a placa com a inscrição “Santa Irene”. Nos últimos anos, os trilhos remanescentes foram parcialmente retirados ou estão cobertos pelo mato, assim como o que restou da plataforma.

Atualmente, Areia se caracteriza como um bucólico povoado rural, com o predomínio de chácaras, o que permite uma vida muito tranquila e o contato permanente com a natureza. Do passado, existe apenas a capela dedicada à Nossa Senhora Aparecida, ponto central do Povoado e em torno da qual é realizada anualmente uma festa para a padroeira, com a participação dos moradores do local e da região.

Publicado na edição 10.660, de sexta a quarta-feira, de 15 a 20 de abril de 2022.