‘Quarto do Pânico’ é suspense brasileiro que transforma trauma em tensão visceral

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Suspense psicológico - Entre trauma, sobrevivência e reconstrução, Ísis Valverde conduz Quarto do Pânico com força emocional crescente, sustentando o filme que humaniza o medo e revela camadas profundas de dor, coragem e resistência.Foto (Reprodução/Internet).

A releitura brasileira de Quarto do Pânico, dirigida por Gabriela Amaral Almeida, parte de uma premissa já conhecida do suspense hollywoodiano para construir algo próprio: um filme que desloca o medo do espetáculo para o território íntimo do trauma. Mais do que reproduzir a engrenagem narrativa do original, a versão nacional se ancora em dores reconhecíveis, luto, insegurança urbana, sobrevivência emocional e, com isso, encontra identidade.

No centro dessa construção está Ísis Valverde. Sua Mari não é apenas uma mãe acuada pela invasão; é uma mulher atravessada por uma perda recente, que tenta transformar proteção em anestesia. A atriz conduz essa jornada com notável versatilidade: começa recolhida, quase suspensa pelo trauma, e aos poucos permite que a força emerja de dentro para fora. Há precisão no modo como Valverde dosa fragilidade e resistência, sem recorrer a excessos. A química com a filha, interpretada brilhantemente por Marianna Santos, sustenta o eixo emocional do filme, criando uma relação de cumplicidade que torna cada decisão dentro do quarto do pânico mais urgente, e mais humana.

Esse crescimento dramático da personagem é um dos motores da narrativa. A sobrevivência não se dá apenas contra os invasores, mas contra memórias que insistem em paralisar. O roteiro compreende que o verdadeiro confronto é interno, e Ísis traduz isso com presença cênica firme, carregando silêncios, respirações e olhares que dizem mais do que o texto.

Do outro lado da tensão, Marco Pigossi constrói um vilão sem caricatura. Seu Charlie é ameaçador justamente pela contenção: a violência está sempre prestes a transbordar, mas raramente explode de forma gratuita. Pigossi domina essa ambiguidade e sustenta a encenação com consistência da primeira à última cena, oferecendo um antagonista que inquieta mais pelo que sugere do que pelo que mostra.

Caco Ciocler, como Raul, acrescenta camada de mistério calculado. Há algo de ardiloso em sua presença, uma inteligência silenciosa que mantém o espectador em permanente suspeita. O ator trabalha nuances com elegância, evitando leituras óbvias e contribuindo para a atmosfera de instabilidade que o filme procura instaurar.

Já André Ramiro enfrenta talvez o desafio mais delicado do conjunto: humanizar Benito sem suavizar o crime que comete. Movido pelo desespero de salvar o filho gravemente doente, o personagem corre riscos morais e físicos que poderiam facilmente cair no sentimentalismo. Ramiro evita essa armadilha. Sua interpretação é contida, dolorosamente consciente, e transforma Benito no ponto de empatia do filme, se é que existe.

Como obra de gênero, Quarto do Pânico funciona pela tensão bem calibrada e pela atualização temática. Como drama, encontra potência nas performances e na escolha de olhar para o trauma feminino não como fragilidade, mas como processo de reconstrução. O resultado é um suspense que respira brasilidade sem perder universalidade, e que confirma, sobretudo, a força cênica de Ísis Valverde como eixo emocional de uma narrativa sobre medo, perda e resistência.

Publicado na edição 10.988 Sábado a terça-feira, 21 a 24 de fevereiro de 2026 – Ano 101