Remédios amargos

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Há pouco menos de um ano, alunos, pais e professores de uma escola tradicional aqui da cidade de São Paulo passaram por um cenário de absoluta comoção quando dois alunos daquela instituição cometeram suicídio com poucos dias de diferença entre uma ocorrência e outra. Era época de provas e os dois alunos não se conheciam ou tinham qualquer relação.
Ato contínuo, meios de comunicação, comunidades acadêmicas, associação de pais e especialistas sobre o tema levantaram, à época, alertas efusivos que culminaram em discussões com o objetivo de entender melhor tais acontecimentos. Hoje o assunto já deixou as principais pautas mediáticas, mas, bastará um novo acontecimento ou uma nova comoção para o assunto virar manchete.

Cenário
preocupante
Embora a sistemática de notificações de suicídios, principalmente em países pobres, gere números não tão confiáveis para formar estatísticas concretas, a OMS dá conta de que no mundo morrem cerca de 800 mil pessoas anualmente, sendo a segunda maior causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos. Os homens se matam mais, mas as mulheres tentam mais, provavelmente porque os mecanismos utilizados por eles tendem a ser mais letais.
A Europa apresenta os maiores índices de mortalidade do mundo seguidos pelo sudeste asiático. Entretanto, em continentes como o africano e o sul-americano parece haver graves distorções relacionadas às subnotificações. A qualidade dos dados precisa ser bem melhorada.
Em números absolutos, o Brasil é o oitavo da lista com maior número de suicídios. No geral, a cada 100 mil habitantes, seis se matam todo ano. E para cada um que se mata, outros 20 já tentaram. A região sudeste concentra 38% dos suicídios e a região sul, 23%. Aqui em nosso território existe uma grande peculiaridade: os indígenas estão disparados na frente em relação aos índices de morte, principalmente entre jovens entre 10 e 19 anos. De acordo com o Ministério da Saúde, os povos indígenas apresentam uma alarmante relação de 15,2/100 mil, enquanto os brancos chegam a 5,9/100 mil, negros a 4,7 e amarelos a 2,4.

Ações e condutas
Existe um efeito contágio chamado efeito Werther que diz que a forma como um suicídio é divulgado pode levar a outros suicídios. Recomendações do Ministério da Saúde sinalizam para ações que deveriam ser evitadas pela mídia de alto alcance, como noticiar os casos em primeira página, publicar fotos, mencionar a palavra suicídio no título, divulgar o método utilizado e o lugar da ocorrência, falar em tentativa “bem sucedida” ou em “êxito”, entre outros pontos.
Em contrapartida, é recomendado divulgar telefones úteis, onde buscar ajuda, quais são os sinais de alerta e utilizar sempre uma linguagem adequada, por exemplo, “morto por suicídio” ou “suicídio”.
No Brasil, o Centro e Valorização da Vida (CVV) é uma das mais destacadas instituições criadas para tratar, entre outros assuntos, o suicídio. O seu objetivo principal é realizar o apoio e prevenção às mortes, atendendo às pessoas que querem e precisam conversar, com total sigilo. Para tanto, oferece o telefone 188 para ligações gratuitas, uma plataforma digital (www.cvv.or.br) e o atendimento presencial. É uma instituição competente, comprometida e confiável!

O algoritmo
da prevenção
As pessoas, em geral, deixam rastros de que vão se matar. Levando esse fato em consideração, pesquisadores do Laboratório de Psiquiatria Molecular do Hospital das Clínicas de Porto Alegre criaram um algoritmo capaz de detectar se uma determinada pessoa está na rota do suicídio. Para tanto, o algoritmo analisa textos (rastros) que a pessoa tenha previamente escrito, como mensagens de e-mails e publicações em redes sociais, verifica os padrões de desvios de comportamento e, na evidência de algum desvio, emite um alerta.
Para que o algoritmo funcione adequadamente é necessário fornecer-lhe subsídios (textos anteriores) de alguém que já tenha tentado dar um fim à sua vida, afim de que forme uma base de conhecimento e aumente a sua acuidade na emissão dos alertas. Quando estiver pronto, esse algoritmo será uma importante ferramenta de prevenção ao suicídio, evitando que pessoas precisem tomar o remédio mais amargo de suas vidas.

(Colaboração de Wagner Zaparoli, doutor em ciências pela USP, professor universitário e consultor em tecnologia da informação).

(…)

Publicado na edição 10373, de 14 e 15 de março de 2019.