Um futuro sem cartão

José Mário Neves David

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Os instrumentos de plástico são hoje a grande febre dos meios de pagamento, no Brasil e no mundo. A utilização dos cartões de débito e crédito vem ganhando tração já há alguns bons anos, dada a digitalização da economia, a derrubada de taxas e anuidades e a profusão de fintechs e players no mercado financeiro oferecendo cartões para segmentos da sociedade que até então não tinham acesso a este instrumento de pagamento, estando outrora restritos ao dinheiro físico – as notas propriamente ditas – e aos cheques.
Os cartões plásticos se proliferaram e hoje é perfeitamente possível que os brasileiros tenham mais de um na carteira, de diferentes bancos e instituições financeiras, não pagando qualquer anuidade por qualquer um deles. São azuis, roxos, brancos, vermelhos – até o nome do cachorro é possível colocar no seu cartão personalizado, que hoje é muito mais do que um meio de pagamento: é também um passaporte social e um identificador da personalidade de seu usuário.
Muito embora a utilização dos cartões de débito e, especialmente, crédito venha ganhando tração no Brasil e crescendo a percentuais elevados, muito superiores ao crescimento do PIB e da economia como um todo, nota-se que a tecnologia empregada pelos plásticos, em constante desenvolvimento e mudança, já é considerada como passível de fortes mudanças nos próximos anos.
Tal como o VHS, o DVD e o Blu-ray, tecnologias de reprodução de vídeo não tão antigas que foram soterradas pelo streaming, é perfeitamente possível, para não dizer provável, que a utilização dos cartões plásticos esteja com os dias contados.
A implementação de novos procedimentos e tecnologias no mercado bancário nacional, tais como o open banking, o pix e, mais recentemente, a autorização do Banco Central ao Whatsapp para realização de pagamentos no ambiente do aplicativo gera novas possibilidades aos consumidores e usuários de cartões, que passariam a não mais precisar deste instrumento para a realização de operações financeiras no geral, tais como transferências e pagamentos.
Já é realidade na China o pagamento de contas e realização de operações financeiras e bancárias via aplicativos de celular, de forma que a carteira, seja através do uso do dinheiro, cartão ou cheque (alguém ainda se lembra das moedinhas?), passou a ser dispensada naquele País, bastando apenas a utilização do smartphone e uma conexão de internet ativa para a confirmação e consumação de operações com a moeda chinesa.
Os próprios bancos e fintechs nacionais já assumem que a utilização do meio de pagamento plástico não deve mais ser uma realidade no médio prazo, estando já em preparativos para a transição para o ambiente de pagamentos livre de cartões de débito e crédito, uma verdadeira revolução no ambiente de negócios e consumo brasileiro.
Neste sentido, é importante que a cobertura de telefonia móvel e de internet seja popularizada e estendida a todos os cantos do Brasil, a fim de que todas as pessoas que saibam utilizar um smartphone possam estar preparadas para um mundo de pagamentos sem cartões plásticos, uma tendência inevitável, e para que nenhum brasileiro seja alijado desta mudança em curso.

 

(Colaboração de José Mário Neves David, advogado e administrador de empresas. Contato: jd@josedavid.net).

Publicado na edição 10.569 de 10 a 13 de abril de 2021.