Um perigo visível

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O Brasil deverá apresentar neste ano de 2018 cerca de 600 mil novos casos de câncer de acordo com o INCA – Instituto Nacional de Câncer Alencar Gomes da Silva. Três em cada dez casos estão relacionados aos hábitos do cotidiano como tabagismo, consumo de álcool, sedentarismo, obesidade e exposição excessiva ao sol. Alguns tipos de câncer acabam se destacando pela alta incidência, como o de mama na mulher e o de próstata no homem. Além desses, o câncer de pulmão e o de intestino também apresentam incidência relevante nas estatísticas nacionais.
Entretanto, o grande vilão entre os tipos conhecidos da doença continua sendo o câncer de pele. Sua incidência tem aumentado significativamente entre a população brasileira. Para se ter ideia, nos últimos dez anos o percentual de casos cresceu 55%. Só em 2013, 3.316 brasileiros foram a óbito devido à doença. E muito se deve ao envelhecimento da população, exposição ao sol sem a devida proteção, bem como a melhora na sistemática de notificações da doença.

Entendendo o perigo
De maneira geral, o câncer de pele se divide em dois principais tipos: o melanoma, mais agressivo e letal que surge em forma de pinta escura; e o não melanoma, que aparece em forma de lesão que não cicatriza. O melanoma de fato é o mais preocupante dos tipos porque rende 46% das mortes, embora seja responsável por apenas 5% dos casos.
Por sua vez, o tipo não melanoma dificilmente mata o paciente. Ele tem o poder de destruição local, mas dificilmente chega à metástase. Isso ocorre quando o paciente convive com a lesão por 20 ou 30 anos, literalmente ignorando-a. Nesses casos a doença para atingir outros órgãos como o pulmão, fígado e cérebro.
Em termos estatísticos, homens idosos moradores da região sul do país são as principais vítimas do câncer de pele. Das mortes ocorridas no ano de 2013, por exemplo, 57% eram homens, dos quais 72% com mais de 60 anos. A doença pode aparecer tanto pelo acúmulo de exposição ao sol ao longo da vida quanto por episódios esporádicos de grande impacto na pele, como queimaduras e bolhas.
A boa notícia é que mesmo nos casos de melanoma quando diagnosticados precocemente há mais de 90% de chance de cura. Por isso, consultar um especialista periodicamente e manter hábitos regrados cotidianamente é fundamental para mitigar possíveis riscos e impactos negativos à saúde.

Uma preocupação latente
Há alguns anos um estudo conduzido por pesquisadores de São Paulo e do Paraná demonstraram que não são somente os raios ultravioletas os agentes causadores do câncer de pele. A luz visível que nos rodeia também pode ter o mesmo poder.
De forma simplista, o processo se inicia quando a luz visível é absorvida pela melanina – proteína que dá cor à nossa pele – e a transfere para as moléculas de oxigênio gerando formas altamente reativas denominadas oxigênio singlete. Esse oxigênio excitado reage com as moléculas orgânicas, como o DNA, as deteriorando. Quando esse dano afeta um gene que regula a proliferação celular, a célula pode começar a se multiplicar descontroladamente dando origem ao câncer.
Ocorre que os atuais protetores solares fornecidos pela indústria farmacêutica estão preparados para impedir a incidência da radiação ultravioleta em nossa pele, mas não o estão para impedir a incidência da luz visível. Talvez leve anos até que isso venha a ocorrer e, neste caso, o melhor a fazer é realmente evitar a exposição excessiva ao sol, considerando a prevenção como o melhor aliado de nossa saúde.

Colaboração de Wagner Zaparoli, doutor em ciências pela USP, professor universitário e consultor em tecnologia da informação.