Uma doce ilusão

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Desde cedo, ainda criança, costumava ler os fascículos de uma obra chamada “Conhecer”. Cada um deles discorria sobre temas específicos, tais como cinema, foguetes, navios, pássaros, etc. Os temas eram muito bem explorados por textos explicativos e didáticos, mas o que me chamava mais a atenção eram, sem dúvida, as grandes figuras coloridas. Por elas muitas vezes eu conseguia me inserir no contexto do tema e às vezes até me sentir como um personagem da figura. Naquela época (década de 1970) os computadores eram muito pouco explorados e conhecidos. Em compensação, laboratórios com pessoas portando aventais brancos e segurando provetas e pipetas eram muito comuns.

Essas imagens de alguma forma ficaram gravadas em minha mente. Sempre que pensava em um cientista pesquisando, imaginava-o com avental branco, óculos e um laboratório com muitos equipamentos corretamente dispostos e organizados. Afinal, ali provavelmente concentravam-se os mais brilhantes cérebros da humanidade, aqueles que estariam construindo ou decidindo sobre o futuro de todos nós.

Hoje eu ainda tenho essa imagem gravada na mente, mas os anos em que vivi entre pesquisadores e laboratórios teimam em contrapô-la sem meios termos ou remorso a um mundo fatídico. Essa imagem tornou-se inadequada à vida real.

Os bastidores

A primeira vez que entrei em um laboratório como pesquisador (já havia entrado em vários quando era estudante universitário), foi para comemorar um aniversário. Era um final de tarde quente de janeiro de 1992 e algumas pessoas na sala conversavam, outras riam e todas comiam e bebiam. Tratava-se de um dos laboratórios do Instituto de Psicologia Experimental da Universidade de São Paulo.

A comemoração pareceu-me um tanto estranha, talvez por eu não conhecer quase ninguém ali, nem o próprio aniversariante. Mas como havia sido convidado pela minha pretensa orientadora, achei deselegante não ir. A sala não era grande e continha um enorme painel eletromecânico carregado de botões, placas e espécie de odômetros que se interconectavam por um verdadeiro emaranhado de fios coloridos. Tentei imaginar por alguns instantes o que estaria fazendo aquela geringonça “velha” no meio da sala (que na verdade era um laboratório) onde todos comemoravam o aniversário. Reparei que em várias partes do painel havia um santinho impresso em papel, ora pendurado, ora amarrado. Isso atiçou ainda mais a minha curiosidade, que naquele momento já não conseguia disfarçar. Um dos convidados mais atento, percebendo o meu interesse, aproximou-se e começou a explicar o que era o painel e para que servia. Foi quando me deparei pela primeira vez com o conceito aplicado de “reflexo condicionado”, o qual já havia lido em alguns livros e artigos.

O painel era uma central que controlava o número de vezes que um pombo, preso numa caixa de testes (gaiola totalmente vedada), acionava um dos botões disponíveis dentro dela. Quando o pombo acertava ou realizava uma tarefa completa apertando os botões com o bico, um amendoim (ou algo parecido) era liberado. Depois de repetir a façanha de ganhar a comida seguidamente, dizia-se que a ave estava com o seu reflexo “condicionado”. Diariamente os pesquisadores passavam as vistas pelo painel anotando num caderno, os números lá registrados. Depois iam às suas salas analisá-los e chegar às conclusões.

Após deixar a festinha naquele dia, fiquei pensando um bom tempo porque um laboratório daquele nível admitia controlar suas pesquisas por uma máquina velha e completamente ultrapassada, que funcionava a base de santos de papel.

Vivendo a realidade

Durante dois anos e meio eu vivi quase que diariamente o cotidiano daquele laboratório. Foi lá que desenvolvi minha pesquisa – software para ensinar crianças a ler – coadjuvado por duas doutoras em psicologia.

Foram dois anos que me ensinaram muito, não só no quesito técnico-científico, mas principalmente sobre as dificuldades de ser um cientista ou pesquisador neste país. A falta de infraestrutura básica, como canetas e papéis, computadores desatualizados, câmeras de filmar quebradas, impressoras queimadas, enfim, uma série de circunstâncias negativas quase me impossibilitou de concretizar o trabalho em um tempo admissível. E o pior é que esses acontecimentos não foram circunstanciais. Eram sintomáticos e recorrentes e podia-se dizer que afetavam à grande maioria dos pesquisadores.

Hoje a realidade parece não ser muito diferente daqueles anos passados. As universidades brasileiras continuam sem verbas significativas para pesquisa, os pesquisadores continuam com salários insignificantes, e o mundo continua a girar numa inércia infinita. Um verdadeiro pecado que transforma as nossas imagens de infância em mera doce ilusão.

Colaboração de Wagner Zaparoli, doutor em ciências pela USP, professor universitário e consultor em tecnologia da informação.

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Leia mais na edição nº 10305, de 30 e 31 de agosto de 2018.