7 de setembro de 1922: as comemorações do Centenário da Independência em Bebedouro

José Pedro Toniosso

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Capas das edições especiais dos jornais “A Vanguarda” e “Jornal de Bebedouro”, publicados em 7 de setembro de 1822, em comemoração ao centenário da independência do Brasil, do acervo da Gazeta de Bebedouro.

Em 1922, a nação brasileira completou o primeiro centenário da independência e as comemorações ocorreram com grandiosidade por todo o país, especialmente em São Paulo e Rio de Janeiro.

Conforme Lilia M. Schwarcz et all; no Rio de Janeiro, capital federal, as comemorações aparatosas apresentaram o Brasil como uma nação moderna e desenvolvida, desconsiderando os muitos problemas sociais e econômicos vivenciados à época.

Em São Paulo, a reinauguração do Museu Paulista apresentou o episódio do Sete de Setembro como o ápice de um longo processo histórico, simbolizado pela obra “Independência ou Morte”, de Pedro Américo, que ali ocupava lugar de destaque. Neste contexto, com apoio irrestrito do governo do estado, os bandeirantes foram apresentados como os legítimos heróis paulistas.

Em Bebedouro, a passagem da data histórica não poderia passar em branco, conforme artigo publicado no “Jornal de Bebedouro”, em que o professor Augusto Vieira enaltecia: “Bravos à nossa Exma. Câmara Municipal, à Exma. Prefeitura e ao inédito presidente do nosso Directorio Político, Exmo. Cel. João Manoel – que tão patrioticamente se colocaram a frente das festas com que este município virá celebrar esse histórico dia, e que prometem ser do mais desusado brilhantismo.”

A comissão encarregada pela Câmara para organizar os festejos, formada por Antônio Alves de Toledo, Cícero da Silva Prates, Pedro da Silva Pereira e Oscar Werneck, com a intenção de envolver toda a população, informava: “já organizado um esplendido programma (…), que foram já distribuídos em avulsos e enviados a todas as sociedades, corporações e escolas particulares existentes em Bebedouro, convidando-as a tomar parte nestes festejos emprestando-lhe o maior brilho e realce possível.”

De fato, a programação era bastante extensa e diversificada, incluindo salva de tiros, alvorada, desfile cívico, missa, sessão solene, plantio de árvore, ação de graças, jogo de futebol e baile. A comissão solicitava que a população e o comércio colocassem bandeiras à frente de seus prédios, além de iluminá-los na noite do Sete de Setembro, “para comemorar com muito brilho o centenário da independência brasileira.”

Enquanto as comemorações tomavam as ruas, na imprensa o tema ganhava grande destaque, tendo em vista que os jornais eram a principal fonte de informação. Desta forma, “A Vanguarda” e o “Jornal de Bebedouro” capricharam nas edições especiais publicadas em 7 de setembro.

Em sua capa, o “Jornal de Bebedouro” colocou em destaque: “Salve, 7 de setembro de 1922!”, informando que se apresentava “com um número especial, fazendo ilustrar nas suas páginas com o retrato dos vultos mais representativos de nosso meio social e aos quaes Bebedouro deve, em grande parte, os admiráveis surtos de progresso que os colocam em lugar de honroso destaque entre as demais cidades do interior do grande Estado de São Paulo”.

Desta forma, seguindo a tendência historiográfica da época, estampou na primeira página as fotos das principais autoridades: Cel. João Manoel, “Acatado Chefe Político”; Dr. João Nogueira de Sá, Juiz de Direito da Comarca; Cel. Abílio Alves Marques, Presidente da Câmara; José Novaes, Vereador Municipal. Na página seguinte, eram destacados: Cap. Cícero Prates, Prefeito Municipal; Cel. Conrado Caldeira, Vereador Municipal; e Cel. Raul Furquim, Vereador Municipal. Longos textos exaltavam a data, com títulos como “Independência ou Morte”, “Há Cem Anos”, “José Bonifácio de Andrada e Silva – Glorioso Patriarca da Independência”, “O Escotismo e o Centenário”, “A Pátria”, além de diversos poemas cívicos e a letra completa do Hino Nacional.

Por sua vez, “A Vanguarda” trouxe em sua capa algo que era raro na época: uma imagem totalmente colorida, com a reprodução de uma alegoria feminina representando a liberdade, conforme a simbologia cívica francesa, tendo ao fundo a bandeira nacional e no horizonte, a indicação do ano de 1822, tudo sob o título “Independência ou Morte!”.

Nas outras páginas foram inseridos textos cívicos como “Independência do Brasil”, “Pedaço da Lenda”, “O sonho de heroe”, “Salve, Brasil do Futuro”, além de poemas e uma retrospectiva sobre o município, denominada “Bebedouro Histórico”.

Na semana seguinte, ambos jornais informavam sobre o sucesso das respectivas edições sobre a independência, bem como a significativa adesão da sociedade bebedourense nos festejos comemorativos.  Da mesma forma que na capital federal e na paulista, a narrativa aqui apresentada foi a de uma história marcada pelo culto à nação e aos feitos dos grandes homens, locais e nacionais.

(Colaboração de José Pedro Toniosso, professor e historiador bebedourense).

Publicado na edição 10.697, de sábado a sexta-feira, 3 a 9 de setembro de 2022.