A corrupção que contamina por onde passa

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Gustavo Noronha

Então, de duas, uma. Ou você é um completo idiota ou está tentando mudar o mundo fazendo sua parte. Prefiro a segunda opção. A mudança deve começar por nós. Basta estar em um grupo de pessoas e tocar em assunto de política que o povo já começa a se alvoroçar. ‘É culpa do governo que roubou, da polícia que deixou de prender, do médico que deixou de atender, do professor que fez corpo-mole e deixou de ensinar’… Na verdade, não fazemos mea culpa e atentamo-nos aos erros alheios e não aos nossos.
O primeiro a corromper os cofres públicos é o próprio povo. A empresa que não emite nota fiscal, o trabalhador que troca vales alimentação e transporte por dinheiro e apresenta atestados falsos, o infrator que prefere pagar propina a ser multado. Pessoas que furtam sinal de TV a cabo, que percebem ao receber troco a mais e não devolvem. A lista é extensa. Podemos chamar de delitos-não-muito-graves. Aliás, algumas dessas práticas sequer são constituídas como delito, mas sem dúvida, ações como essas geram a cultura do ‘jeitinho’. ‘Sempre que posso, tiro uma vantagem’, a maior ilusão da vida, o pensamento que leva nossa nação para o mesmo buraco de sempre. Qual de nós nunca tentou levar uma vantagem? Não sou baluarte da moral e da ética mas sinto que é de suma importância frisar que o problema maior é não tentar mudar primeiramente as nossas atitudes. O povo brasileiro tem a cultura da corrupção entranhada nas veias.
O político que recebe sua parte por força na licitação já foi um brasileiro com fé, honesto, que talvez por um aperto financeiro, tentou maximizar seus lucros começado com uma pequena sonegação fiscal nos impostos e, ao ver que nada acontecia e que não teve consequência alguma, como tantos outros delitos-não-muito-graves que existem por essas bandas, partiu para alguma ação mais ousada.
Levando em consideração que o ser humano já nasce naturalmente com tendência ao erro, e que sem dúvida, também é condicionado ao meio em que vive, só temos maus exemplos.
Há alguns dias, o motorista que atropelou e matou o filho da atriz global Cissa Guimarães, acompanhado de seu pai, foi solto para recorrer à decisão da Justiça por tê-los condenado em primeira instância, em liberdade. Sim, pai e filho atrás das grades, sendo o filho, o motorista autor do crime. O pai, que não estava presente no momento do acidente, foi condenado a oito anos e dois meses de reclusão (regime fechado) e mais nove meses de detenção (regime semi aberto) pelos crimes de corrupção ativa e inovação artificiosa em acidente automobilístico.
Que tipo de educação Rafael de Souza Bussamra, o motorista, teve em sua casa? Na hipótese de que o filho, autor do crime, seria preso, o pai tentou subornar policiais. Será esse pai, a pessoa que o incentivou a ir embora e depois tentar dar um jeitinho? Acho difícil não ter acontecido situações envolvendo estas pessoas antes. Pode ter funcionado em outras ocasiões em que tenham desrespeitado a lei. Favores, contatos, dinheiro, resolvem tudo? Uma pessoa menos afortunada que talvez não tivesse acesso a advogados bons, a recursos e contatos, teria menos sorte? E se por ventura, o motorista prestasse socorro? Afinal, acidentes acontecem. E se a vítima não fosse filho de atriz famosa? E se o policial tivesse aceitado a propina? Nem ficaríamos sabendo. Quantos crimes acontecem sem deixar rastros? Qual o tamanho da impunidade no Brasil? Quantos acontecimentos inexplicáveis e sem suspeitos são acobertados? Nossa Justiça é muitas vezes questionada. Nossas leis por vezes não funcionam bem. A impunidade é levada a sério no momento em que decidimos fazer algo errado. É nosso costume ser maleável, ‘pegar leve’, ou até relevar algo que não nos importa e não nos seja diretamente prejudicial.
Manifestamo-nos apenas para nos sentir articulados. Inteligentes. Bem entendidos. Defendemos a classe, a pátria, nossas posses, nosso time de futebol, nosso partido político, nossas opiniões. Algum comentário mal colocado, alguma notícia mal lida, algum assunto mal interpretado é pauta de razões irrefutáveis para demonstrar nosso descontentamento. De esfregar nossa opinião na cara das pessoas.
Ficamos chocados ao ver injustiças e pessoas desonestas tentando levar alguma vantagem. O sentimento é de pura repulsa. O sensacionalismo presente na internet e até em alguns meios de comunicação, faz o trabalho de nos (mal) informar. Compartilhamos com outras pessoas para todos juntos, de uma só vez, ficarmos indignados com tamanha malandragem. E claro, nunca deixamos de dar nossa opinião, e por fim, exercer nossa influência na opinião dos menos informados. Não nos colocamos no lugar de ninguém. Nem do malandro tentando dar um jeitinho. Nem de quem foi lesado.
Alguns, por pensar na nossa corrupção coletiva e nacional, sentem-se no direito de tirar uma casquinha. E a sensação é boa! Nossa adrenalina vai às alturas por fazer algo errado e correr risco de sofrer alguma consequência. Acaba por virar um hábito e por fim, uma sucessão de delitos-não-muito-graves. Temos a sensação de que nunca-pode-dar-errado, de que nunca-serei-pego. Infrações ao volante são comuns. Alguma ultrapassagem proibida ou até algum limite de velocidade extrapolado, acaba virando nossa rotina. Sabemos a hora certa de furar a fila na entrada de uma casa noturna. Ou de um banco. Achamos o máximo tirar vantagem de uma situação de despreparo da outra parte. Se acharmos uma brecha, nada nos segura. Aproveitamo-nos de falhas alheias. Conquistamos nossos objetivos e ficamos satisfeitos por isso. Custe o que custar.
O ciclo da corrupção nos afeta diariamente. O consumidor vai à loja para comprar, recebe troco a mais e não devolve. A loja, por sua vez, não emite o cupom fiscal, talvez porque a mercadoria seja proveniente de alguma fonte ilícita. Esse é nosso dia a dia. Essas atitudes são constantes em nossa sociedade.
Insistimos em nossos direitos e esquecemos nossos deveres. Amigo servidor público, concursado, certa vez me confidenciou uma amarga ironia: “O governo finge nos pagar e nós fingimos que trabalhamos”. A falta de preparo, a incompetência, a falta de atributos morais e a falta de educação, em ambos os lados do balcão, arrasta todos a um imenso buraco, atingindo esferas sociais, emocionais e até espirituais e religiosas. Aproveitamos a falta de informação para nos beneficiar. Desde o vendedor, que manipula clientes para fazer vendas casadas com objetivo de cumprir metas impossíveis, a consumidores que tentam se beneficiar de alguma garantia de produto, sabendo que o defeito foi provocado por mau uso.
Seria bom que essa situação, diante de tudo isso que temos visto pelos meios de comunicação, tirasse-nos da acomodação e nos fizesse contrários à corrupção. De verdade. Fazemos tantas marchas, tantos protestos, nos indignamos tanto em prol dos nossos ideais e nenhum tipo de movimento contra a corrupção se levanta. Será porque, de certa forma, nos vemos coniventes com a nossa corrupção?
Não deixemos de fazer nossa parte. Pelo bem de todos nós. Pela consciência humana. Pelo coletivismo. Pela amizade e companheirismo. Pelo futuro de nossa nação, honrada e digna de ser bom exemplo às outras.

(Colaboração de Gustavo Noronha, designer gráfico, paulistano que está residindo em Bebedouro).

Publicado na edição nº 9801, dos dias 3 e 4 de fevereiro 2015.