A frase mais perigosa do balcão da farmácia

Luiz Assunção

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Dr. Luiz Antônio da Assunção, farmacêutico clínico, CRF 23.110 SP, Pós-graduado em acompanhamento farmacoterapêutico; e em gastroenterologia funcional e nutrigenômica. Foto: Divulgação

No dia a dia de uma farmácia, algumas perguntas aparecem com muita frequência. Uma delas é simples e direta. O paciente olha para dois medicamentos diferentes e pergunta:

—Esse remédio tem alguma coisa a ver com aquele outro?

E muitas vezes a resposta vem rápida e aparentemente tranquilizadora:

— Não. Isso não tem nada a ver.

À primeira vista, parece uma explicação lógica. Afinal, cada medicamento foi prescrito para um problema específico. Mas, do ponto de vista da farmacologia clínica, essa frase merece um pouco mais de cuidado.

O corpo humano não funciona em compartimentos isolados. Os diferentes sistemas do organismo estão interligados e se influenciam mutuamente. O mesmo acontece com os medicamentos. Mesmo quando são indicados para finalidades diferentes, eles podem interagir entre si ou produzir efeitos que repercutem em outras áreas do organismo.

Essas relações podem ocorrer de diversas maneiras: alterações na absorção de nutrientes, mudanças metabólicas, efeitos fisiológicos ou interações entre medicamentos.

Por esse motivo, quando uma pessoa utiliza vários remédios ao mesmo tempo — situação cada vez mais comum com o avanço da idade — é importante avaliar não apenas cada medicamento de forma isolada, mas também como todos eles estão funcionando juntos no organismo.

Na prática clínica, muitas queixas que surgem ao longo dos anos não estão necessariamente relacionadas ao aparecimento de uma nova doença. Em alguns casos, elas podem estar associadas ao uso prolongado de medicamentos ou à combinação de diferentes tratamentos iniciados em momentos distintos da vida.

Isso não significa que os medicamentos sejam vilões. Muito pelo contrário. Muitos deles são fundamentais para tratar doenças, prevenir complicações e melhorar a qualidade de vida das pessoas.

O ponto central é outro: medicamentos precisam ser acompanhados e revisados periodicamente.

Perguntas simples feitas pelos pacientes, muitas vezes no balcão da farmácia, podem revelar algo importante: a percepção de que talvez exista alguma relação entre sintomas, tratamentos e mudanças no organismo. Por isso, antes de responder automaticamente que “não tem nada a ver”, vale lembrar que o corpo humano é um sistema complexo e integrado.

Na saúde, quase tudo está conectado.

E compreender essas conexões é uma das formas mais importantes de promover segurança no uso dos medicamentos e qualidade de vida ao longo dos anos.

(Colaboração de Luiz Assunção, Farmacêutico Clínico na Clínica Assunção).

Publicado na edição 10.995, quarta, quinta e sexta-feira, 18, 19 e 20 de março de 2026 – Ano 101