
As medidas de isolamento social no Brasil, como o fechamento de comércio de bens e serviços não-essenciais, começaram no Brasil na segunda quinzena de março, a partir de decisões de governadores e prefeitos.
Menos de um mês após sua implementação, em meio a informações desencontradas, como o pronunciamento do presidente Jair Bolsonaro, atacando o confinamento, diferentes locais do país passaram a registrar mais pessoas circulando nas ruas.
Segundo autoridades sanitárias, o enfraquecimento do isolamento é preocupante e pode ter severas consequências. Como a infecção pelo novo coronavírus (Covid-19) pode ser assintomática ou só desencadear sintomas após duas semanas, baixos números de casos registrados podem dar a falsa impressão de segurança e surpreender por súbito aumento posterior dos casos, pressionando os sistemas de saúde, como o que aconteceu na região da Lombardia, na Itália.
Mas o que faz com as pessoas deixem de pensar no coletivo e arrisquem suas vidas e de outros saindo às ruas, no momento em que o isolamento social é, comprovadamente, a única forma efetiva de combate ao vírus? Em entrevista exclusiva a Gazeta, o psicólogo Marcelo Bosch explica: “Faz parte da natureza do comportamento humano”.
O que diz a Psicologia
Para o psicólogo especialista e mestre em psicologia clínica e pós-graduado em neuropsicologia, Marcelo Bosch Benetti dos Santos, a pandemia do novo coronavírus proporciona à população, situação de incerteza, não apenas por tratar-se de uma pandemia, mas de um vírus novo, com caráter dinâmico, até mesmo para os órgãos oficiais de saúde, que diariamente atualizam e complementam suas ações, de acordo com o avanço da doença e as características apresentadas por ela, em diferentes países.
“Esta incerteza gera ansiedade nas pessoas. Para umas mais, para outras menos, mas por via de regra, gera sensações de apreensão e ansiedade”, explica Bosch, acrescentando que uma das medidas preconizadas pela Psicologia e profissionais de saúde mental, como médicos psiquiatras e psicoterapeutas, é a criação de uma rotina adaptada, para restaurar nas pessoas a sensação de controle sobre a situação em que vivem. “A ideia de criar uma rotina, apesar de ser uma orientação bastante simples, é de extrema importância para resgatar a sensação de segurança e controle. É importante seguir o dia a dia, ter afazeres e compromissos, adaptados, é claro, por causa da pandemia, mas não deixar de tê-los”, continua.
Outra orientação dos psicólogos e psiquiatras é ampliar os limites da informação, porém filtrando-as, ou seja, buscando informações em órgãos oficiais e veículos seguros, além de não disseminar notícias alarmistas e de fontes duvidosas. “Mais do que checar mais de uma vez, informações relacionadas à pandemia, devemos não nos envolver 24 horas por dia no assunto, acessando menos vezes as redes sociais. Não quer dizer que devemos nos alienar, mas buscar apenas o que for necessário, sem que se torne prejudicial”, destaca o especialista.
Comportamento de esquiva
A esquiva é um comportamento que o indivíduo mantém para evitar situações ou estímulos aversivos em seu ambiente, como situações de ameaça e doenças. Segundo Bosch, o comportamento de esquiva traz como consequência a ‘evitação’ (do inglês, avoidance) a algum estímulo aversivo. No caso da pandemia da Covid-19, o isolamento social é a esquiva adotada pelos órgãos sanitários e de saúde, para evitar o aumento do contágio pelo vírus.
“Porém, se as pessoas passam a adotar majoritariamente comportamentos de esquiva, desenvolvem repertórios de comportamento empobrecidos e deixam de produzir resultados positivos, tendo como efeito colateral, torná-las mais insensíveis às contingências do ambiente”, explica o psicólogo.
Ao mesmo tempo em que a ‘evitação’ não produz, propriamente, uma consequência positiva visível, impede algo negativo. “O comportamento de esquiva se enfraquece porque aquilo que deixa de se produzido, mantém o comportamento de esquiva, mas também o enfraquece, porque não há algo mais tangível, palpável ou concreto, que possa ser realizado. Ou seja, pensa-se que assim como não se produz nada de aversivo, também não produz algo positivo e se nada acontece, as atitudes são irrelevantes. Mas a problemática é bem mais profunda”, diz Bosch.
Para o especialista, o ser humano é mais sensível a consequências imediatas. Quando o resultado está mais distante, na linha do tempo, as pessoas tendem a ser menos sensíveis a ele. Um exemplo simples deste imediatismo, segundo Bosch, é a busca por procedimentos de emagrecimento, que exigem menos renúncia e menos tempo para notar as consequências, mesmo que sejam menos saudáveis e não tão efetivos. “No caso da pandemia, para alguns, o fato de não saber com certeza se podem ou não ter a doença, e se suas ações surtem efeito ou não, faz com que não se preocupem tanto em manter o isolamento. Estamos em isolamento há algumas semanas e o gráfico da curva de casos continua a subir, parecendo que os esforços não estão valendo a pena, mas estão. Os efeitos não são vistos de um dia para outro, as ações terão resultados futuros, mas o isolamento evita que a curva seja ainda mais íngreme, com mais casos confirmados”, pontua o psicólogo, acrescentando que “o ser humano moderno tem baixa tolerância e paciência para aguardar resolutivas a médio e longo prazo e os que não vêem respostas imediatas, tendem a mudar de rota”.
Enfraquecimento da esquiva
O enfraquecimento ou paradoxo da esquiva trata da consequência que este comportamento produz, que é evitar o contato com algo nocivo e ameaçador, porém, que tende a se perder quando as pessoas alegam que se nada de ruim está acontecendo com elas, não haverá consequências se afrouxarem as medidas de ‘evitação’. Neste caso específico da pandemia da Covid-19, refere-se à descrença das pessoas quanto ao poder do vírus e o papel do isolamento social, fazendo com que muitos abandonem a quarentena.
“Este tema deve ser discutido neste momento, porque as pessoas precisam ser lembradas constantemente do propósito do comportamento de esquiva, no caso, o isolamento. Se não forem lembradas da gravidade do problema e de suas consequências, com dados estatísticos, a tendência é que este comportamento se enfraqueça. Não podemos permitir que o real motivo pelo qual estamos nos esquivando caia no esquecimento”, acrescenta.
Não é novidade
O mesmo paradoxo já ocorre em relação às vacinas, que algumas pessoas não vêem necessidade em tomá-las porque as doenças advindas delas já deixaram de ser notificadas. “O princípio é o mesmo”, garante o psicólogo, que continua: “As pessoas precisam ter consciência de que só estarão imunes, se mantiverem determinado comportamento, no caso, tomar as vacinas. Elas precisam ser educadas e orientadas para que se tornem mais sensíveis ‘ao que pode acontecer se’, ou seja, quais serão as consequências da não imunização”.
Como resolver
Será preciso que os casos aumentem para que haja fortalecimento da esquiva? Será preciso os números tornarem-se nomes, para que as pessoas compreendam o poder do vírus e os riscos da quebra da quarentena?
De acordo com Bosch, quando a situação tende a piorar, as pessoas se preocupam mais e adotam com mais eficácia o comportamento de esquiva. “Para que não cheguemos a este ponto, é preciso conscientização da população sobre os danos que a doença pode causar. Devem ser sensibilizadas através da informação, precisam ser lembradas que o ficar em casa, está salvando vidas. As consequências estão sendo produzidas, a médio e longo prazo, é a ‘evitação’ do colapso do sistema de saúde e a redução do número de pessoas adoecidas. Se isso não é valido, o que mais é?”, indaga o especialista.
O que não vivemos na pele, nos parece distante, dificulta a adesão e deslegitima a problemática. Enquanto não vivenciamos a experiência, não a validamos. A tendência não é regional, mas um fenômeno global, segundo Bosch, e faz parte da natureza do comportamento humano. Para ele, as consequências que a esquiva produz são pouco palpáveis, por isso, controlam pouco, mas denotam efetividade.
“Manter o isolamento é algo que exige disciplina, renúncia e ética, pensando no coletivo. Se penso no próximo e entendo que há pessoas mais vulneráveis que podem ser contaminadas por mim, passo a ponderar meu comportamento e assumo minha responsabilidade de me esquivar”, conclui o especialista.
A Gazeta tem cumprido seu papel de informar com seriedade e profissionalismo, com dados científicos, os efeitos da pandemia no mundo, no Brasil e em Bebedouro, que segundo Bosch, é o primeiro passo para a conscientização da população.
Para que tenhamos um Mundo Melhor em meio à pandemia, cabe a cada um ter empatia e senso de coletividade, compreendendo seu papel vital, como parte do todo.
Publicado na edição nº 10480, de 18 a 24 de abril de 2020.