A saúde da água

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A cidade de São Paulo está se tornando uma cidade cortada por vias destinadas à circulação de bicicletas. São as chamadas ciclovias. Duas das principais estão situadas em pontos chaves da cidade: uma na Avenida Paulista e outra na Marginal Pinheiros. Não fosse uma grande metrópole, com suas destacadas idiossincrasias, essas ciclovias poderiam transpirar o mesmo charme sentido nas ruas de Paris, Bruxelas ou Leipzig. Acontece que ainda pertencemos a um país em desenvolvimento (sic!), e como tal, os ciclistas comem muita poeira.
Na Avenida Paulista, mesmo aos domingos pela manhã, o trânsito não é dos melhores. Poluição sonora e fuligem se misturam ao estresse da violência, mas não inibem os ciclistas, que fazem do lugar um parque a céu aberto.
Já na Marginal Pinheiros o desafio é outro: conviver com o odor de um rio em alto nível de putrefação, como vive o Pinheiros há muito tempo. Diferentemente de quem passa de carro por ali, andar de bicicleta às suas margens transforma o ciclista em uma entidade muito próxima do rio, como se ambos fizessem parte de um elemento único da natureza. Entretanto, o descaso de um para com o outro é notório. Vez por outra existe uma manifestação que deixa ecoar o grito de suplício do rio, mas passageira e superficial diante do desastre que se apresenta neste curso d’água.

Descaso nacional

Os exemplos dos rios Pinheiros e Tietê na capital paulista não são singulares. Se bem me recordo, o córrego Bebedouro, um dos principais marcos históricos de nossa cidade, já foi manchete da Gazeta pelo descaso com que população e governo cuidaram dele no passado. Um pouco mais distante, nas cercanias de Viradouro e Terra-Roxa, jaz, se assim podemos dizer, o rio Pardo, outrora a casa do Dourado e de inúmeras outras espécies de peixe que tornavam o rio vivaz. O próprio Piracicaba, que já foi romanticamente cantado em prosa e verso, há muito é lembrado pelos flocos de sujeira que costumam cobrir todo o seu leito. Isso só para falar do estado de São Paulo.
Ocorre que essa situação degradante tem lugar comum no cenário nacional. É o que mostra um estudo realizado há alguns anos pela fundação SOS Mata-Atlântica, cujo escopo envolveu 69 rios e lagos, em 70 cidades de 15 estados brasileiros.

Poluição nefasta

De acordo com os estudos nenhum curso d’água pesquisado apresentou nível de água bom ou ótimo: 4% ficaram no nível péssimo; 28% no nível ruim; e 68% no nível regular.
Enquanto que há 20 anos os principais elementos poluidores baseavam-se nos resíduos industriais, produtos químicos e metais pesados, atualmente boa parte da fonte poluidora é doméstica. Cerca de 70% dos poluentes são formados por esgoto doméstico e os outros 30% são lixo que a população descarta ignorando – ou não – os impactos a médio e longo prazo sobre a sustentabilidade do planeta.
Em época de eleições como agora, investimentos em saúde, educação, segurança e emprego viram moeda fácil de troca, mas não podemos nos esquecer de observar como o assunto meio ambiente é tratado no programa de nossos candidatos. Temos o direito e o dever de exigir saneamento básico para a nossa cidade e para o nosso bairro, pois as obras que normalmente não propiciam votos aos candidatos, certamente gerarão resultados positivos para as gerações futuras.
Em contrapartida às exigências, temos também a obrigação de exercer nossa própria cidadania no descarte do lixo que criamos. Tirá-lo fora das vistas de forma irresponsável tem um alto custo, como estamos vendo, e certamente a natureza vai cobrá-lo mais cedo ou mais tarde.
Em tempo, depois de ter finalizado este artigo, soube, pelas páginas da Gazeta, que Bebedouro terá 100% do esgoto tratado, em um cronograma de poucos anos. Notícia boa de se ler e de se comemorar.

Publicado na edição nº 9753, dos dias 2 e 3 de outubro de 2014.