Alanis Guillen e Gabriela Medvedovski escrevem seus nomes na história da representatividade em horário nobre

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Representatividade - Alanis Guillen e Gabriela Medvedovski entram para a história ao dar vida a um dos casais mais importantes da década, como Lorena e Juquinha, em Três Graças.Foto: (BEATRIZ DAMY/TV GLOBO).

A construção de Juquinha e Lorena, o já consagrado “Loquinha” de Três Graças, é um dos movimentos mais maduros da dramaturgia recente da TV Globo. Sob o texto de Aguinaldo Silva, Zé Dassilva e Virgílio Silva, o casal não nasce como bandeira, nasce como história. E isso faz toda a diferença.

 

Os autores desenvolvem as duas personagens com camadas próprias, conflitos individuais e trajetórias que se sustentam mesmo fora da relação. O romance, portanto, não soa forçado nem apelativo. Ele surge da convivência, do olhar demorado, da troca silenciosa, do amadurecimento do afeto. É dramaturgia clássica aplicada com consciência contemporânea: primeiro constrói-se o indivíduo, depois a relação.

E o que poderia ser apenas representatividade vira narrativa sólida porque há planejamento. Há arco dramático. Há progressão emocional.

Química que transborda a tela

Se o texto é consistente, a execução é ainda mais poderosa. Alanis Guillen e Gabriela Medvedovski têm uma química que expande a tela. Não é exagero: há uma pulsação real entre as duas, algo que ultrapassa o set de gravação e alcança o público com verdade.

Não à toa, o casal ganhou um spin-off, produção em formato vertical, com gravações já iniciadas. Quando um núcleo transborda da novela para gerar um produto próprio, é porque existe força dramática e identificação popular. Não é estratégia vazia: é consequência de construção bem-feita.

Uma cena que respeita o tempo da história

A primeira noite de amor entre Juquinha e Lorena é exemplar. Foi construída com delicadeza, sem rodeios desnecessários, mas com o tempo dramático correto. Não porque se trata de um casal LGBTQIAPN+ que “precise preparar terreno”. Mas porque qualquer cena íntima, para fazer sentido, precisa nascer do percurso emocional.

Ela não foi colocada no ar para gerar engajamento ou manchetes. Foi um momento inevitável dentro da narrativa. A história pedia aquele passo. O arco exigia aquela entrega. E é exatamente isso que diferencia dramaturgia responsável de oportunismo.

História na ficção, impacto na vida real

Quando a Globo aposta nesse casal no horário nobre, ela não apenas avança na representação. Ela consolida um entendimento: diversidade não é nicho, é realidade social.

Loquinha entra para a história da televisão brasileira porque foi construída com naturalidade e precisão. Porque respeita o tempo do amor. Porque não usa a pauta como muleta narrativa. Porque emociona.

E, sobretudo, porque faz milhares de pessoas LGBTQIAPN+ se reconhecerem na tela sem precisar se explicar.

Mais histórias precisam ser contadas assim: com verdade, com planejamento, com arco dramático consistente. Não para cumprir agenda, mas para cumprir a função mais nobre da dramaturgia: refletir a vida e, ao mesmo tempo, transformá-la.

 

Publicado na edição 10.992 Sábado a terça-feira, 7 a 10 de março de 2026 – Ano 101