
Desde a chegada dos portugueses, a Amazônia é um mistério insondável. Quanto já se escreveu sobre ela e ainda hoje está na ordem do dia. Agora, por receber, pela primeira vez, uma reunião da ONU, a COP30, escolhida exatamente para fazer o mundo prestar atenção a essa região onde consta viver mais de trinta milhões de pessoas, nem todas inteiramente incluídas na civilização e que é o território em que a sofisticada criminalidade sem pátria parece fazer o que bem entende.
Discursos não faltam, projetos são múltiplos. Ela serve de assunto para a Academia, para a Política, para a Economia. Só não se faz por ela o que ela espera e merece. A “soberania” nacional se excita e fica indignada quando a comunidade internacional quer nos lembrar de sua importância.
Os intelectuais sempre tiveram uma predileção por essa imensa floresta, hoje nem tão imensa, porque tem sido vítima de uma feroz devastação. Impressiona que pessoas eruditas sustentem a necessidade de se acabar com ela, em nome do “progresso”, do “desenvolvimento”, sem lembrar que sem ela, não haverá Brasil com futuro. As chuvas do cerrado, onde está a maior produção da milagrosa agroindústria, deixarão de existir. Assim como faltarão para a área mais adensada do País, o nosso Sudeste, onde está a economia e que igualmente o espaço em que a cultura permite o melhor uso da tecnologia. Tudo será afetado se a Amazônia sucumbir.
Para mostrar que o interesse pela “Hileia Brasileira” não é recente, pense-se que Euclides da Cunha, que lá esteve como engenheiro e como jornalista especial do “Estadão”, a descreveu como “um ser ainda disforme que o Homem arrancou a fórceps do útero da Natureza”.
Mas não deixou essa definição no seu livro “À margem da História”, substituindo-a por “O homem chegou ali sem ser esperado nem querido – quando a Natureza ainda estava arrumando o seu mais vasto e luxuoso salão”. E também escreveu, no prefácio de “O Inferno Verde”, de Alberto Rangel: “A Amazônia é uma página do Gênese, ainda por escrever!”.
Corre-se o risco real de que ela nunca venha a ser escrita!
Estreia poética
A poesia é prosa musicada. Trabalhar com as palavras, fazê-las por vezes rimar, outras vezes, ainda que sem rima, transmitir ideias sublimes, é para talentos raros. Nem toda concatenação vocabular é poesia de verdade. Mas há quem se considere “poeta” e não se canse de produzir versos, que servem como exercícios de comunicação às vezes até interessantes.
Todo intelectual tem a pretensão de fazer poesia? Nem todos. Mas aqueles que querem sê-lo, sem a natural provisão do dom, estes às vezes produzem casos curiosos. Ou seja: fornecem material para reflexão ou, ao menos, para tornar a vida mais temperada com humor.
Foi o que aconteceu com Alberto de Oliveira, nome pelo qual era conhecido Antônio Mariano Alberto de Oliveira, (1857-1937), um dos líderes do parnasianismo brasileiro. Tinha ele um irmão, Mariano de Oliveira, que era “o poeta da família”. Fazia bons versos. Alberto sentiu inveja irreprimível e quis também “poetar”.
Escolheu um soneto já publicado, modificou-o, quis dar uns toques de originalidade aqui e ali, alterou uma ou outra palavra. Submeteu o resultado a seu irmão Mariano. Este achou que o soneto era aproveitável. Aconselhou Alberto a continuar, pois restava explícita a sua vocação para a arte.
Incentivado pelo irmão, Alberto começou a perpetrar seus próprios poemas. Levou-os novamente a Mariano. Que respondeu: – “Estes não estão propriamente maus. Mas aquele anterior era bem melhor!”.
Alberto sentiu vontade de contar ao irmão o que fizera. Hesitou e só pediu que Mariano devolvesse o soneto. E o irmão retrucou: – “Agora não dá mais. Achei-o tão bom, que mandei para um jornal de Campos, para publicação, como incentivo à sua carreira de poeta!”.
Quando contava esse episódio mais tarde, Alberto sentia-se compungido: – “Se por acaso vocês encontrarem por aí um soneto de Francisco Otaviano com o meu nome, não me levem a mal! Foi minha estreia poética!”.
Alberto de Oliveira tornou-se grande poeta parnasiano, integrante da “tríade” dessa escola no Brasil, completada por Raimundo Corrêa e Olavo Bilac.
(Colaboração de José Renato Nalini, reitor da Uniregistral, docente da Pós-Graduação da Uninove e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo).
Publicado na edição 10.982, quarta, quinta e sexta-feira, 28, 29 e 30 de janeiro de 2026 – Ano 101





