

Há personagens que entram em cena e parecem já carregar uma vida inteira nos olhos. Em Coração Acelerado, novela das 19h da Globo, Walmir Santana surge assim: atravessado por falhas, endurecido pela vida, mas sustentado por um amor visceral pelo filho. E é nesse terreno de contradições que Antônio Calloni reafirma sua grandeza como ator.
Calloni não interpreta Walmir, ele o constrói a partir de dentro. Seu trabalho é de composição minuciosa, atento aos gestos, à respiração, ao silêncio e às explosões. Há um estudo evidente de origem, de trajetória, de dor. Ele mergulha na gênese do personagem e traduz isso em cena com naturalidade impressionante.
Desde o primeiro capítulo, quando corre atrás de um violão para que João Raul participe de um concurso, o ator já estabelece o eixo emocional da relação: um pai que ama, mas que constantemente sabota esse amor com suas próprias fragilidades. Esse tipo de ambiguidade exige domínio técnico e sensibilidade, duas marcas registradas de Calloni.
O ator domina com precisão a difícil tarefa de humanizar um personagem potencialmente rejeitável. Walmir manipula, erra, acumula dívidas, coloca o futuro do filho em risco. Ainda assim, nunca se torna raso ou caricato. Calloni encontra nuances em cada cena, revelando um homem dividido entre o afeto e o vício, entre a proteção e a autodestruição.
Sua química com Filipe Bragança é outro acerto. Há verdade na troca entre os dois, e isso eleva as cenas a um patamar mais denso. Nos embates mais intensos, especialmente quando o vício em jogos entra em pauta, Calloni conduz com controle absoluto de ritmo e emoção, sem excessos, mas com impacto.
Veterano e versátil, Calloni reafirma aqui uma de suas maiores qualidades: a capacidade de se reinventar a cada personagem. Se em Além da Ilusão entregou um homem consumido pela culpa e pela loucura, em Coração Acelerado ele constrói um anti-herói profundamente humano, marcado por suas fraquezas e, justamente por isso, tão real.
É o tipo de atuação que não busca aplauso fácil. Busca verdade. E encontra.
Calloni não apenas atua. Ele investiga, sente, mergulha e transforma cada personagem em experiência.
Publicado na edição 10.996 Sábado a sexta-feira, 21 a 27 de março de 2026 -Ano 101




