

Os rumores sobre possível continuação de Avenida Brasil movimentaram a internet e reacenderam a discussão sobre o que leva uma emissora, especialmente a Globo, a revisitar grandes sucessos. A novela de João Emanuel Carneiro, exibida em 2012, é um marco incontestável da teledramaturgia brasileira: parou o país, gerou bordões, memes e um frenesi popular que extrapolou a tela. Com personagens icônicos e roteiro de ritmo cinematográfico, Avenida Brasil marcou época ao transformar o embate entre Nina (Débora Falabella) e Carminha (Adriana Esteves) em verdadeira guerra de emoções, vingança e ironia social.
A história original tinha equilíbrio raro: início, meio e fim bem definidos. A jornada de Nina, que retorna para se vingar da madrasta que destruiu sua infância, foi contada com tensão, humor e humanidade. Carminha, vilã e vítima de si mesma, virou símbolo de uma era. Reabrir esse universo mais de uma década depois é, no mínimo, arriscado, especialmente quando o desfecho original encerrou de forma redonda os arcos de todos os personagens.
Nos últimos anos, a Globo tem apostado em continuações como forma de capitalizar sucessos passados. No Rancho Fundo (2024), sequência de Mar do Sertão (2022), manteve o bom desempenho no horário das seis; Eta Mundo Melhor, sequência de Eta Mundo Bom! (2016), é atualmente um fenômeno de audiência e aceitação. Esses projetos provaram que há espaço para revisitar universos queridos, desde que haja propósito narrativo e coerência estética. Além disso, os remakes têm dominado o mercado, da TV ao cinema, reforçando a ideia de que a nostalgia é produto rentável. Basta olhar o sucesso de Pantanal (2022) e Renascer (2024), que respeitaram as obras originais e atualizaram seus discursos para novos tempos.
Mas Avenida Brasil é diferente. É uma obra que envelheceu bem, com estrutura narrativa completa, e que dificilmente se beneficiaria da “parte dois”. Qual seria a história a ser contada? O que mais haveria a dizer sobre Nina e Carminha sem trair o espírito da trama? O risco de transformar um clássico em paródia de si mesmo é alto.
É claro que, pela nostalgia, a audiência viria, e seria gigantesca. Mas sucesso de público não é sinônimo de qualidade. A memória afetiva pode atrair olhares, mas dificilmente sustentará uma história sem propósito. Em tempos de reboots e repetições, é preciso coragem também para não revisitar o passado.
Avenida Brasil já disse tudo o que precisava dizer. Reabrir suas portas pode render manchetes, mas talvez feche um capítulo que, até hoje, é unanimidade na memória do público e da crítica. Se for pra voltar ao Divino, que seja apenas em nossas lembranças, e nas reprises que nos lembram do por que essa novela se tornou eterna.
Publicado na edição 10.968 de sábado a quarta-feira, 15 a 19 de novembro de 2025 – Ano 101




