Um evento atípico colocou a cidade de Bebedouro em evidência em maio de 1947. Desde o mês anterior a imprensa local e nacional passou a divulgar intensamente a ocorrência de um eclipse solar total, marcada para acontecer na manhã do dia 20 daquele mês e ano e que seria visível em parte da América do Sul.

Conforme os cálculos realizados, a faixa do eclipse passaria por territórios do Chile, Argentina, Paraguai e Brasil, onde atravessaria parte dos estados do Paraná, São Paulo, Minas Gerais e Bahia. Alguns pontos foram definidos como os de melhor visibilidade para a observação do fenômeno, entre eles as cidades mineiras de Bocaiúva e Araxá, além de Bebedouro, em São Paulo.

Equipes de cientistas franceses, estadunidenses, russos, suecos, canadenses, finlandeses e de outras nacionalidades se deslocaram para o Brasil, principalmente para as referidas cidades. Em Bebedouro, o trabalho seria realizado por brasileiros e franceses que formaram a “Missão Franco-Brasileira”, cujo diretor fez a seguinte declaração ao jornal “A Manhã”, do Rio de Janeiro: “nossas observações serão dirigidas às altas zonas de atmosfera, a ionosfera, com a finalidade de melhorar os conhecimentos que temos sobre a radioeletricidade para que sejam facilitadas as comunicações internacionais. Para tanto, trazemos uma aparelhagem francesa”.

As atenções foram se intensificando na medida em que se aproximava a data tão esperada e a imprensa passou a publicar reportagens detalhadas com aspectos científicos, históricos e até mesmo supersticiosos gerados pelo evento. Em 20 de maio, o mesmo jornal publicou: “Chegamos finalmente ao dia do eclipse. […] Em pleno dia, o sol se esconderá e, então, cairá a noite estranha e fria. O céu ficará estrelado e a própria natureza se transformará em alguns momentos.”

Porém, nem tudo transcorreu conforme era ansiosamente esperado. Em Bebedouro choveu torrencialmente na noite da véspera do eclipse e os cientistas precisaram improvisar para proteger os sofisticados aparelhos instalados em acampamento localizado a cerca de 8 quilômetros da cidade, em terrenos de propriedade de Paulo Rezende e Luiz Cassiano.

Com a instabilidade do tempo, as observações se restringiram à captação dos raios cósmicos e estudos dos reflexos das ondas elétricas, a cargo respectivamente do professor Marcelo Damy, do Departamento de Física da USP, e do engenheiro Seligman, que chefiava a delegação francesa.

Além da equipe que se instalara previamente, Bebedouro recebeu uma caravana de 46 engenheiros, técnicos e cientistas vindos de São Paulo. O eclipse total ocorreu, conforme previsto, às 9 horas, 26 minutos e 6 segundos, e sua duração foi de 3 minutos e 20 segundos. O eclipse parcial durou cerca de 2 horas e 30 minutos.

A imprensa local, representada pelos jornais “Gazeta de Bebedouro” e “A Vanguarda”, também fez ampla cobertura do evento. Na edição do dia 20 de maio, o jornal “A Vanguarda” publicou: “Toda gente queria ver a lua passar diante do sol. O comércio não funcionou regularmente, as escolas tiveram suas aulas interrompidas, e a “esquina do pecado”, duma hora para outra se viu tomada por uma onda de curiosos. […] Na hora indicada pelos cientistas, precisamente às 9 horas e 26 minutos, a cidade se viu presa de intensa escuridão, tanto que as luzes foram acesas e a temperatura caiu bruscamente, enquanto no céu o “astro rei” entrava em conjunção com a lua. Foi um momento indescritível. Era de ver-se a intensa comoção que a todos dominava e se registrava em todas as fisionomias”.

Durante o período de estadia na cidade, os ilustres visitantes receberam várias demonstrações de apreço da sociedade local, sendo-lhes oferecida uma confraternização e uma vesperal dançante. Enquanto parte da delegação tomou o trem de volta à capital, um grupo de cientistas brasileiros permaneceu por cerca de 20 dias na cidade para dar continuidade aos estudos, além de receber a visita de alunos das escolas locais e da região.

Apesar dos prejuízos causados pelo mal tempo, que impediu a observação em plenitude, o eclipse colocou a cidade de Bebedouro em evidência, sendo noticiada por jornais e emissoras de rádio do Brasil e exterior. Além disso, diante do ineditismo, o evento entrou para os anais da história bebedourense.

(Colaboração de José Pedro Toniosso, professor e historiador bebedourense www.bebedourohistoriaememoria.com.br)

Publicado na edição 10.852, de sábado a sexta-feira, 22 a 28 de junho de 2024