

Êta Mundo Melhor voltou, ou melhor, continua, e com ela, Walcyr Carrasco retorna ao horário em que mais sabe entregar o que o público quer: emoção simples, personagens carismáticos e vilões cartunescos com doses certeiras de maldade. A estreia da continuação da novela de 2016 confirma que Carrasco está exatamente onde deveria estar. Mesmo sem fracassos em seu currículo, é inegável que a faixa das 18h é o território onde ele reina absoluto.
Confesso: sou contra continuações de novelas. Em um país com tantos talentos criativos, revisitar tramas antigas me parece um risco desnecessário. Mas, quando o nome por trás da empreitada é Walcyr Carrasco, a gente respira fundo e assiste, porque ele raramente decepciona. E não decepcionou.
Já no primeiro bloco, o autor entregou com clareza o que será o motor da nova jornada de Candinho: encontrar o filho sequestrado. Simples assim. E Carrasco sabe que o simples funciona. Ele desenha tudo para o público com nitidez, quase como um mapa ilustrado. É novela como novela deve ser: para ser sentida, não decifrada.
Sérgio Guizé retoma o papel com familiaridade e emoção na medida certa. Candinho segue ingênuo, mas agora é também um pai desesperado. A nova motivação dá fôlego à trama e abre espaço para o melodrama que Carrasco executa como poucos.
A participação especial de Bianca Bin como Maria é um presente para o público. Atriz de verdade faz falta nas novelas atuais, e sua breve aparição deixa um gosto de “quero mais”. Seria um luxo vê-la protagonista de uma história inédita em breve.
Heloísa Périssé, por sua vez, brilha como a vilã. Sua personagem tem texto afiado, trejeitos cômicos e crueldade na medida exata para o horário. É o tipo de vilã que diverte e ameaça, sem nunca ultrapassar o tom. Com sorte (e talento, que ela tem de sobra), vai conquistar o público.
O núcleo do orfanato também funciona bem. As crianças são bem escaladas, e Carrasco sabe conduzir esse tipo de trama como poucos. Há leveza, emoção e propósito. A direção de Amora Mautner, mais uma vez, é eficaz, valorizando os cenários rurais e apostando em atuações limpas, diretas e emotivas. A parceria dela com Carrasco, que já funcionou antes, promete render ainda mais.
Ainda é cedo para cravar o sucesso, mas os primeiros passos são firmes. Carrasco deixou escritos os 30 primeiros capítulos e passa o bastão para Mauro Wilson, enquanto prepara sua próxima empreitada no horário nobre, marcada para 2026. Se Wilson mantiver o ritmo e o tom, Êta Mundo Melhor continuará sendo, de fato, um mundo bom para se entrar às 18h.
Publicado na edição 10.934, de sábado a sexta-feira, 5 a 11 de julho de 2025 – Ano 101




