Capistrano & Bilac

Capistrano & Bilac

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É importante para as novas gerações, saberem que o Brasil já contou com literatos que foram, à sua época, cultuados como os atuais influencers. A diferença é que eles tinham conteúdo. A obra era resultado de aprofundados estudos, de reflexão e de maturação das ideias. Já a produção dos tik-toks e vias análogas é o impulso espontâneo de erupções que pouco têm a ver com erudição.

Capistrano de Abreu, por exemplo, era venerador dos vultos antigos. Estudava tanto a vida deles, que nutria a sensação de viver entre elas e no seu tempo. Uma dessas fixações afetivas era Frei Vicente do Salvador. Mais do que admiração, era uma espécie de religião. Fora responsável por editar a “História do Brasil” escrita por Frei Vicente. Anotara-a, estudara-a e amava o autor como a um amigo vivo.

Um dia surgiu muito triste e cabisbaixo. Qual a desgraça que o atingira? E ele responde ao amigo que se preocupa com seu abatimento: – “Você não imagina como tenho andado aborrecido! Sabe o que eu descobri? Não só descobri, como apurei e verifiquei que a mãe de Frei Vicente foi uma pessoa viciada, desonesta, uma pessoa de vida escandalosa!”.

Era difícil para ele desvincular a obra e seu autor da origem presumivelmente espúria. Do lodo também podem brotar lírios!

Já Olavo Bilac, nada obstante a qualidade poética, bebia demais. Descia para a cidade – Rio de Janeiro – ordinariamente, entre as onze horas e o meio-dia. Trazia a sua crônica diária para “A Notícia”. E começava a beber e assim prosseguia, até alta noite ou, às vezes, até alta madrugada.

Numa noite, 4 de novembro de 1904, ele estava bem alterado. Caminhando a partir do Largo da Lapa, ele e alguns amigos de bebedeira passaram diante do Catete. O palácio presidencial estava em regime de plantão, porque se aguardava o ataque da Escola Militar, que obedecia ao comando de Lauro Sodré. Inteirado pela guarda dos acontecimentos, Bilac, que havia bebido mais do que nunca, gritou:

– “Eu não posso ir para casa numa situação dessas! Vou fazer companhia a meu amigo Rodrigues Alves!”.

Identificou-se, teve acesso ao Catete e ali ficou até o dia seguinte. É que o paulista Rodrigues Alves, então Presidente da República, devotava a Bilac a maior estima. Consta até que ele namorava uma filha do Presidente, que faria o maior gosto no casamento. Mas isso não chegou a acontecer.

 

O sonho de Bilac

Olavo Bilac, (1865-1918), ou Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac, foi um dos maiores poetas brasileiros. Foi aclamado como o “Príncipe dos Poetas Brasileiros”, título depois herdado por nosso Paulo Lébeis Bomfim, que este ano completaria cem anos.

Bilac era uma pessoa extraordinária, além de respeitado poeta. Quando, em Paris, acabara de ler o prelúdio do “Chantecler”, estava maravilhado e dizia: – “Sabes qual é hoje o desejo mais ardente da minha vida? Não ter mais coisas práticas de que cuidar, recolher-me a casa, semanas, meses inteiros, escrevendo versos. Só assim eu poderia começar a obra que me supus capaz de escrever!”.

Como poeta, era mais do que admirador das mulheres. Elas o assediavam. Narrando um telefonema, ele diz: “Era voz de mulher, mas uma voz de mulher a quem se quer bem, voz de mulher que se espera desde o princípio da vida. Indagou da minha saúde, interessada naturalmente pela minha vida. Conversamos durante meia hora sobre coisas honestas e ela, a insistente pedido meu, prometeu telefonar no dia seguinte. Prometeu e cumpriu. E assim se passou uma semana, duas, três, e um mês e dois. Todos os dias, às oito da manhã, era certo aquele chamado, que eu já aguardava com ansiedade. Até que, um dia, eu insisti em conhecê-la. Aquela situação era para mim um tormento. Preferia, a bem da minha saúde, não a ouvir mais, a persistir naquele regime. E ela, diante da minha insistência, aquiesceu”.

Combinaram que ela passaria, a determinada hora, diante de um local em que os intelectuais cariocas se encontravam todas as tardes. Ele indagou como poderia reconhecê-la no meio de tanta gente. E ela: – “Eu me farei reconhecer. Irei vestida de preto e olhá-lo-ei de modo que me reconheça”.

Na hora aprazada, ela surgiu. Bilac descreve: “um dos tipos de mulher mais impressionantes que eu tenho visto na minha vida. Alta, elegante, fisionomia serena e doce, toda ela irradiava beleza, graça e bondade. Ao passar por diante de mim, sorriu e inclinou a cabeça, num cumprimento”.

Ele se emocionou. Pensou em segui-la, mas a figura o emocionara tanto, que ele desistiu. E foi a primeira e última vez que a viu. – “Não voltou, nem nunca mais me telefonou…”.

Belos tempos que também não voltam mais, em que se falava durante meses, por meia hora, com admiradoras desconhecidas…

(Colaboração de José Renato Nalini, reitor da Uniregistral, docente da Pós-graduação da Uninove e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo).

Publicado na edição 10.992 Sábado a terça-feira, 7 a 10 de março de 2026 – Ano 101