
Desastres naturais como terremotos e tsunamis, guerras civis e degradação da natureza são alguns dos motivos que levam populações de certas partes do mundo a sofrerem pesadas perdas financeiras e principalmente humanas, com grande incidência de crianças com menos de cinco anos.
Embora a ajuda humanitária advinda de ONGs, instituições privadas e instituições governamentais seja rápida e providencial, nem sempre consegue se organizar para prestar um serviço eficiente e eficaz. E os exemplos não são poucos, desde o tsunami que arrasou a costa sul da Ásia em 2004 matando milhares de pessoas, à guerra civil no Sudão que gerou milhões de refugiados.
A tecnologia tem transformado a prática da ajuda humanitária nos últimos tempos, elevando-a a um nível de precisão ímpar. Muitas são as iniciativas pelo mundo, desde a utilização de tecnologias para mapear os prováveis riscos e alertar os responsáveis antecipadamente, aos kits de sobrevivência a desastres naturais, como aqueles pequenos canudos que filtram a água impura no processo de sucção realizado pelas pessoas ao beberem a água.
Uma longa história
A história da ajuda humanitária não é recente e no início dos tempos era realizada de forma rudimentar e primitiva. Oficialmente podemos citar o ano de 1859 como um divisor de águas no atendimento aos necessitados. Nesse ano aconteceu a Batalha de Solferino, na qual milhares de soldados feridos ficaram espalhados pelo campo de batalha sem nenhuma assistência organizada.
Uma testemunha dessa fatalidade, o empresário suíço Jean Henri Dunant, escreveu um livro sobre a necessidade de se organizar a ajuda aos soldados feridos, dado que as batalhas são inevitáveis. Tal livro inspirou a fundação de uma das mais famosas instituições de ajuda humanitária no mundo, a Cruz Vermelha, fato ocorrido quatro anos após essa sangrenta batalha.
Daquele longínquo ano de 1859 ao século XXI, a ajuda humanitária se profissionalizou e se expandiu demasiadamente, tanto quanto as batalhas e guerras pelo mundo, bem como as suas inocentes vítimas. Em 1945 aconteceu a fundação da ONU – Organização das Nações Unidas. Várias de suas agências lideram campanhas humanitárias que reúnem ONGs locais e internacionais, cidadãos comuns, agências de governo, empresas privadas e exércitos, entre outras.
Da mesma maneira, a evolução tecnológica iniciada em meados do século XX chegou a um patamar extraordinário de precisão, o que facilita o trabalho humanitário dessas organizações.
Utilizando a tecnologia
Talvez a primeira iniciativa formal de ajuda humanitária com o apoio da tecnologia tenha se dado em 1931, logo após a passagem de um tufão sobre a China, o qual provocou inundações e estragos diversos, dificultando a localização de sobreviventes pelas autoridades.
Nessa ocasião, dois turistas, Charles e Anne Morrow Lindbergh, passavam férias por lá e observaram o sério problema que se apresentava ao governo e população. Assim, pegaram o seu avião de longa distância e fizeram um levantamento aéreo que conseguiu identificar milhões de vítimas precisamente localizadas, o que ajudou a guiar a reação governamental humanitária.
Hoje os levantamentos aéreos são feitos com níveis de precisão inigualáveis, executados por equipamentos de tecnologia de ponta assistidos por inteligência artificial, como os satélites ligados a redes de informação na Terra, os quais produzem imagens de alta definição que auxiliam sobremaneira a elaboração de planos para busca de vítimas, para a distribuição de medicamentos, de alimentos e de água, além de aumentarem a rapidez no processo de contenção de doenças infecciosas, a grande vilã das hecatombes naturais.
Por outro lado, desde os anos 80, voluntários da organização Médicos sem Fronteiras vêm utilizando tecnologia bem mais simplória que os satélites das agências espaciais: os famosos kits de sobrevivência. Tais kits, que contêm entre outros componentes, sais de reidratação oral, antibióticos e aparatos para diagnosticar doenças de alta letalidade como a malária, têm se mostrado fundamentais na salvação de inúmeras vidas, pois ajudam a aumentar a resistência do organismo a tempo da chegada de uma ajuda mais apropriada e específica.
Tanto a tecnologia de ponta quanto a tecnologia mais simples e barata têm se mostrado indispensável aos voluntários que participam da ajuda humanitária mundo afora. Entretanto, a pura tecnologia não faz milagres. É preciso que tais voluntários a conheçam em profundidade, saibam manipulá-la e utilizá-la em casos emergenciais e sob pressão. Afinal, é difícil prever um desastre, e quando ele acontece, toda a rapidez é necessária.
E para o querido leitor que aprecia o tema e entende sua importância, deixo três brevíssimos vídeos produzidos pelo Médicos Sem Fronteiras que dão uma pequena demonstração da relação virtuosa entre ciência, tecnologia e ajuda humanitária.
Aproveite!
https://www.youtube.com/watch?v=3U6jZzIM1So
https://www.youtube.com/watch?v=28G-QRSPWf4
https://www.youtube.com/watch?v=f2QUi69-C6w
(Colaboração de Wagner Zapparoli, Doutor em Ciências pela USP, Professor Universitário e Consultor em Tecnologia da Informação)
Publicado na edição 10.977 de 20 de dezembro de 2025 a 13 de janeiro de 2026 – Ano 101





