
Há pouco mais de um milhão de anos, o Homo erectus deu início a um fenômeno que mudaria para sempre não só a sua vida, mas também a vida das linhagens de hominídeos que surgiriam a posteriori, entre elas, o Homo sapiens. Não foi um simples e desprezível evento, foi algo transformador que proveu uma oportunidade única na escala evolutiva do gênero Homo sob o ponto de vista cultural, social e orgânico. O uso do fogo, algo tão banal nos dias de hoje, revelou-se processo singular e excepcional, tão mágico quanto profundo, que elevou o nosso gênero a patamar nunca alcançado por qualquer outra espécie animal na Terra. Tanto que Charles Darwin o considerava só menos importante que o surgimento da linguagem como sistema estruturado de comunicação, dada sua importância na jornada da vida.
Embora haja ruidosos debates e grandes polêmicas sobre o domínio e uso do fogo no meio acadêmico e científico, fato é que não fosse por ele – o fogo – talvez ainda existíssemos nas cavernas e nos campos disputando alimentos com outros primatas. Talvez nosso destino estivesse selado a uma inteligência restrita e limitada, completamente desprovida de complexidade cognitiva, autoconsciência e capacidade de simbolização. Para muitos seríamos somente mais um biscoito no pacote.
Trajetórias transformadoras
Mas, se o fogo nos transformou em seres tão majestosos sob a perspectiva da inteligência, a ciência forjada por essa mesma inteligência nos apresentou uma realidade bem menos glamurosa, demonstrando que no pacote chamado Universo, sequer chegamos a ser um átomo, quanto mais um biscoito inteiro.
Foi assim que Nicolau Copérnico e Galileu Galilei destituíram a Terra como centro do Universo, promovendo o heliocentrismo. Muita gente morreu queimada na fogueira antes que a humanidade se convencesse do fato.
Foi assim também que Charles Darwin e Alfred Wallace destituíram o homem do centro do Universo, apresentando a raiz de nossa linha ancestral como a mesma dos macacos. Até hoje há quem duvide.
Por fim, foi assim que Sigmund Freud revelou que nem mesmo somos donos de nossa própria mente, da maior parte de nossos pensamentos, desejos e de nossas ações. Muitos sequer entendem o que isso significa.
Portanto, ao mirarmos a perspectiva histórica da humanidade observamos que sua essência foi cuidadosamente moldada por inúmeras trajetórias transformadoras, ora colocando-a em destaque absoluto pertinho do céu, ora trazendo-a de volta à realidade terrena.
A ciência e a tecnologia
Se a experimentação e as ideias geniais do passado longínquo nos tiraram do mundo primitivo das cavernas, foi graças à ciência e à tecnologia que conseguimos potencializar nossa inteligência no sentido de expandir a aquisição do conhecimento e admitir uma evolução acelerada da jornada humana na Terra.
A saúde e a medicina são bons exemplos dessa evolução. Enquanto combatíamos as doenças infecciosas na Idade Média com preces, ervas e fezes, no século XXI as combatemos com medicamentos altamente sofisticados, suportados por diagnósticos moleculares, pela bioinformática e mais recentemente, pela inteligência artificial.
A base dessa transformação foi a capacidade humana de gerar e disseminar sistematicamente o conhecimento, fazendo dele, instrumento de combate à ignorância e ao obscurantismo que por muito tempo nos perseguiu assertivamente. Esse conhecimento é o nosso grande triunfo.
Uma singela contribuição
A Gazeta de Bebedouro é um dos jornais regionais em circulação mais longevos do estado de São Paulo e do Brasil, com mais de 100 anos de existência. Antenada aos acontecimentos regionais, nacionais e mundiais, sempre cultivou a prestação de serviços sociais, culturais e políticos inestimáveis à população. Hoje, sob direção de Sarah Cardoso, continua atuante tanto em sua versão impressa quanto digital.
Na esteira dessa longevidade, cá estamos com nossa coluna Ciências e Tecnologia, que agora em fevereiro completa 24 anos de existência.
Tanto para o jornal quanto para a coluna, falar de longevidade não é algo apenas temporal. É muito mais, é dar à história da informação a sua devida importância. É ter, acima de tudo, a plena capacidade de levar ao leitor a essência do conhecimento esclarecido e verdadeiro, sem vieses ideológicos ou políticos. É saber reconhecer o valor de quem lê e ressaltar a importância da educação para uma sociedade cidadã.
Nós, da coluna, tentamos de forma singela e simplista, mas, com muita alegria e motivação, levar um pouquinho do mundo da ciência e da tecnologia às pessoas que atualmente se veem sufocadas pelo emaranhado das redes sociais, orquestradas para o adestramento incontinente da sociedade.
Nesse ponto faço um grande parêntese para agradecer ao querido leitor que não só tem acompanhado essa fascinante jornada, mas também contribuído com opiniões e sugestões relevantes e pertinentes.
Que o fogo do passado continue nos iluminando no presente e no futuro para que consigamos exorcizar todo e qualquer resquício de ignorância e obscuridade que possa renascer no seio da humanidade.
Desejamos a todos um 2026 de muita esperança, alegria e oportunidades, mas acima de tudo, de muita saúde. Estejamos sempre juntos!
(Colaboração de Wagner Zapparoli, Doutor em Ciências pela USP, Professor Universitário e Consultor em Tecnologia da Informação)
Publicado na edição 10.985 Sábado a terça-feira, 7 a 10 de fevereiro de 2026 – Ano 101





