
Apossar-se de pequenos objetos quando se hospeda num hotel, frequenta-se um restaurante ou até ao se visitar uma casa de família é mania que se denomina cleptomania. Uma coisa é pretender “levar uma lembrança”. Outra é apropriar-se de bens valiosos. Isso passa a ser furto, um crime tipificado no Código Penal, artigo 155, cujo tipo é “subtrair coisa alheia móvel”.
Há pessoas que se vangloriam de “coleções” formadas dessa maneira. Tudo trazido de viagens e hospedagens.
Episódios históricos já contemplaram acontecimentos análogos, alguns em larga escala. Foi o que ocorreu no Castelo de Chapultepec, morada de verão e harém dos imperadores astecas no México. O bom gosto de gente acostumada às comodidades e ao luxo dos Palácios Imperiais de Viena, os então soberanos do México – Maximiliano e Carlota – fizeram da velha construção índia uma suntuosa e confortável residência moderna.
O opulento salão de banquetes, com seus adornos de mesa, baixelas e talheres, foi palco de um episódio interessante. O famoso aventureiro Pancho Villa, que foi revolucionário mexicano, com sua tropa, entrou vitorioso na Cidade do México, instalou-se no Castelo e mandou servir a seus generais, ajudantes e sequazes um grande banquete com tudo o que no Palácio houvesse de mais rico e luxuoso.
Ao terminar o lauto ágape, o guardião do palácio aproximou-se de Villa e o informou que haviam desaparecido quase todas as peças do rico serviço que havia sido posto à mesa. Villa ordenou ao guardião que nada dissesse, mas fechasse todas as portas do salão. Isto feito, ergueu-se e, de revólver em punho, dirigindo-se com veemência a seus comensais, ordenou que se pusessem sobre a mesa todas as peças que haviam sido escondidas. Declarou que ninguém dali sairia antes que se verificasse que não faltava uma só delas.
O expediente foi providencial. Cada qual foi retirando do próprio bolso, garfos e colheres, até que a contagem, que se fazia simultaneamente, houvesse atingido o satisfatório resultado.
Será que isso funcionaria em certos banquetes, em que a cleptomania se confunde com a conhecida arte do furto?
São Paulo vai crescer
Muitos paulistanos ainda não sabem que sua cidade vai crescer em qualidade ambiental. O Prefeito Ricardo Nunes assinou declarações de utilidade pública de uma área equivalente a onze por cento do território da megalópole. São trinta e duas áreas, num total de cento e sessenta e cinco quilômetros quadrados.
Impressionante a dimensão dessa providência: são quase dezessete mil hectares, superiores a todo o perímetro de Paris e seus arredores. Nela, caberiam quase dezesseis mil campos de futebol. Houve exauriente e minucioso trabalho de detecção de glebas ainda providas de verde, os resíduos da Mata Atlântica ainda não totalmente eliminados pelo crescimento desordenado desta conurbação instigante que é a capital paulista.
Agora, seguir-se-á na identificação dos proprietários, que serão contatados e não se exclui a possibilidade de um acordo entre a Municipalidade e os titulares dominiais. Se isso não for possível, a expropriação garantirá à Prefeitura imediata imissão na posse, pois o interesse público se sobrepõe ao interesse particular. E haja interesse público na preservação de remanescentes da exuberante cobertura vegetal quase toda dilapidada ao longo dos cinco séculos da chegada do colonizador. Um investimento que poderá ultrapassar os setecentos e vinte e seis milhões de reais.
Antes desses trinta e dois atos de declaração de utilidade pública, outros onze já haviam sido publicados. O benefício é para as atuais e futuras gerações. Estas ainda sofrerão os desastrosos impactos da mudança climática, gerada pela insensatez no uso dos recursos naturais. Efeitos que eram anunciados para daqui a um século, mas que já estão ocorrendo e com intensidade surpreendente.
A cidade de São Paulo foi a primeira no Brasil a criar uma Secretaria de Mudanças Climáticas, exatamente para que o tema esteja na preocupação de todas as demais unidades estatais de responsabilidade do Município. Mais ainda, pretende-se conscientizar a iniciativa privada, a Universidade, a Academia, a sociedade civil, a mídia e todas as pessoas. A gravidade do tema não permite que qualquer pessoa se sinta excluída em relação à sua responsabilidade quanto à possível mitigação dos prejuízos advenientes dos fenômenos extremos.
O grande vilão é o carbono, portanto a descarbonização já passou da fase de urgência. Mas também é preciso cuidar da excessiva produção de resíduos sólidos, que são geradores de quase dez por cento dos gases venenosos causadores do efeito-estufa.
A ampliação de áreas verdes garante não só o aumento dos sumidouros de gás carbônico, essa a função das árvores, mas também a atenuação da temperatura, a redução das “ilhas de calor”, a ressurreição de córregos e de cursos d’água e aumento de longevidade e da qualidade de vida para toda a população.
Pensar o que cada um pode fazer quanto ao enfrentamento das mutações do clima é um ato responsável e de cidadania, a que ninguém pode estar subtraído. Vamos encarar juntos aquilo que a maior cidade do Brasil pode fazer em relação ao seu futuro.
(Colaboração de José Renato Nalini, reitor da Uniregistral, docente da Pós-graduação da Uninove e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo).
Publicado na edição 10.855, de sábado a sexta-feira, 6 a 12 de julho de 2024 – Ano 100





