
O consumo de carne animal é disseminado em nosso país, mas tem evidentes impactos ambientais. Cynthia Schuck e Raquel Ribeiro escrevem sobre isso, num livro que está na quarta edição e que tem o título deste artigo. É preciso pensar o que significa o abate de trinta e quatro milhões de bovinos, cinquenta e sete milhões de porcos e seis bilhões e dois milhões de frangos, no ano de 2023.
Cada animal desses precisa de uma quantidade específica de terra, água, alimento e energia. E produz expressiva quantidade de dejetos. Tudo a emitir os gases venenosos causadores do efeito-estufa, geradores do aquecimento global de que derivam os fenômenos extremos das emergências climáticas.
A manutenção de bilhões de animais como estoque vivo de alimento representa imensa pressão sobre todos os ecossistemas da Terra. A pecuária é uma das maiores fontes de degradação ambiental. Exige áreas extensas, volume imenso de recursos naturais e energéticos e gera bilhões de toneladas de resíduos sólidos, líquidos e gasosos. A criação de animais para consumo humano é um dos principais fatores responsáveis por crises ambientais gravíssimas, incluindo desmatamento, desertificação, perda de biodiversidade, escassez de água doce, poluição hídrica e erosão do solo.
A saúde talvez seja o principal apelo a que se reduza o consumo de carne vermelha. Pois a maioria das zoonoses, doenças infecciosas de animais transmissíveis a seres humanos, está ligada à criação e ao consumo de animais. De quando em sempre surgem notícias sobre enfermidades em animais, o que interrompe o fornecimento desse insumo que o Brasil exporta para grande parte do mundo.
Também compromete a qualidade de vida humana a emissão crescente de gases causadores do efeito estufa. A pecuária é responsável por 18% das emissões em todo o planeta e, no Brasil, o cenário é ainda mais alarmante. A cadeia de produção da carne bovina emitiu 1,4 bilhão de toneladas brutas de CO2, ou seja, 77,6% das emissões dos sistemas alimentares no Brasil.
Manter o padrão de consumo de carne, laticínios e ovos é insustentável. É plenamente possível substituir tais itens por inúmeras alternativas vegetais de valor nutricional equivalente. Pense a respeito e comece por ler “Comendo o Planeta”, editado pela Sociedade Vegetariana Brasileira.
É mais barato ser resiliente
Resiliência é a palavra de ordem para todas as cidades nesta era de grave crise climática. É preciso adaptar as cidades para o enfrentamento dos fenômenos extremos, já que a fase de mitigação deixou de ser suficiente, diante da magnitude dos fenômenos extremos.
Sem uma política séria e consistente de preservação do ambiente natural, haverá irrefreável destruição de ecossistemas. Isso vai reduzir ou mesmo exterminar serviços ambientais sem os quais não há a menor possibilidade de vida digna. Purificação da água, controle de enchentes, prevenção a inundações e alagamentos, atenuação da temperatura para evitar as assassinas ondas de calor, que matam silenciosa, mas bastante eficazmente.
Se paga caro por não seguir a natureza. De acordo com o WWF, a substituição de serviços ambientais por infraestrutura artificial custará de dez a vinte vezes mais. Está comprovado que para cada real investido em sustentabilidade, evitar-se-á um gasto de três a cinco reais em virtude dos desastres que não são naturais, senão consequência de nossa incúria. Também haverá custos para a saúde pública e para a infraestrutura urbana.
Se as cidades teimarem no desconhecimento dos males gerados pelo excesso de resíduo sólido e não tiverem a coleta seletiva como política pública efetiva, além do reaproveitamento do que é descartado, os custos do manejo de lixo serão cinquenta por cento maiores, devido ao investimento em soluções que não são as ideais, como os aterros sanitários ou o transporte para locais distantes, diante da inexistência de lugares adequados nas proximidades da área urbana.
Acrescente-se que cada tonelada de resíduo encaminhada a aterro sem adequado tratamento, onera o custo médio adicional a duzentos reais por tonelada, considerado o transporte, a operação e o impacto ambiental.
De igual forma, sem drenagem urbana sustentável e proteção de mananciais, os custos associados a enchentes serão muito maiores. E o pior: vidas estarão ameaçadas. Isso sem falar nos custos de reconstrução e reparo do patrimônio lesado por enchentes.
São apenas algumas observações para mostrar que é muito mais barato adaptar a cidade para o enfrentamento dos fenômenos extremos do que deixar que as coisas aconteçam como tem sido até hoje. Deu para convencer que resiliência é uma política humanitária que tem de ser encarada de frente e de forma resoluta?
(Colaboração de José Renato Nalini, reitor da Uniregistral, docente da Pós-graduação da Uninove e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo).
Publicado na edição 10.933, quarta, quinta e sexta-feira, 2, 3 e 4 de julho de 2025 – Ano 101





