
Enquanto o mundo parece se importar com o aquecimento global, realizando, pela vigésima sétima vez, um encontro de países interessados em mitigar os efeitos da venenosa emissão de gases, o Brasil se dá ao luxo de eliminar, em cinco anos, 108.463 quilômetros quadrados de seus biomas.
Sim. A informação é oficial, do Prodes Brasil, programa do Inpe – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. Recorde após recorde, somos os campeões da devastação ambiental. Desmatou-se uma área maior do que o Estado de Pernambuco.
Isso em todos os biomas: Amazônia, cerrado, Pantanal, Mata Atlântica, caatinga e pampas. É a destruição do patrimônio-maior que o Brasil possui e que poderia alavancar o retorno de capital internacional, sequioso por aplicar em potenciais projetos de descarbonização.
É paradoxal que se afirme a intenção de proteger trinta por cento da biodiversidade mundial e se extermine aquela que o Brasil sequer chegou a conhecer. País miserável em pesquisa poderia viver de royalties obtidos com produtos de valor agregado existente em sua exuberante flora. Prefere criar pastos e desertos.
O terrível é que o mais devastado bioma é a nossa Mata Atlântica. Dela, as cifras oscilam, não resta senão um décimo do que um dia foi. Ainda assim, a maior parte na mão de particulares. Sempre desejosos de maior flexibilização no controle ambiental, para ampliar os vazios ecológicos de que resulta nefasta alteração do clima e a disseminação de epidemias.
Sem frear o desmatamento – que deveria ser “zero” – sem reflorestar, que deveria ser uma cruzada incessante, como é que o Brasil vai cumprir o Acordo de Paris, onde se comprometeu a reduzir, até 2030, em 43%, as emissões de gases-estufa? A partir desse ano, a redução seria de 50%. Alguém acredita na observância dessas promessas?
Discursos edificantes, protestos de amor ecológico no mais elevado nível, mas leniência ao sancionar infratores, anistia inadmissível quando o bem lesado ultrapassa o âmbito pessoal para afetar uma legião de viventes, inclusive os que ainda não nasceram! Basta ler com atenção o artigo 225 da Constituição da República.
Na marcha das contradições e paradoxos em que imerge o bicho-homem, alguém põe a mão no fogo, na certeza de que as coisas vão melhorar?
O bem precisa ganhar escala
O Brasil precisa de boas notícias. Chega de terror, de mentiras, de falácias e conspiração. E uma dessas coisas que nos animam é a iniciativa de particulares em relação à deficiência arbórea nesta terra que, nos últimos anos, foi eficiente em destruir todos os seus biomas.
Seis grandes empresas criaram uma organização cuja finalidade será a restauração, conservação e preservação de florestas brasileiras. Itaú Unibanco, Marfrig, Rabobank, Santander, Suzano e Vale, fundaram a Biomas, cuja proposta é recuperar dois milhões de hectares de áreas degradadas, começando por plantar dois bilhões de árvores nativas.
Belíssimo gesto. Algo que deveria ser disseminado em todos os municípios. Basta mencionar o nome dos grupos para verificar que alguns têm agência em todos os lugares.
Por que não estimulá-los a atuar naquele espaço em que têm clientes, embora em âmbito mais reduzido? Afinal, o país é que precisa de reposição, pois a sanha assassina da natureza fez muito estrago. Uma árvore demora em crescer. Mas se não se fizer já, imediatamente, os anos necessários a que ela se desenvolva e passe a prestar – gratuita e espontaneamente – os serviços ecossistêmicos naturais e imprescindíveis à conservação de toda espécie de vida no planeta, a situação do aquecimento global ficará cada vez pior.
Os Prefeitos inteligentes e antenados com a urgência do tema climático devem tomar a iniciativa. Se não tomarem, os cidadãos de bem, aquelas almas sensíveis, das quais o Brasil felizmente dispõe, precisam procurar os representantes dessas empresas e instituições financeiras em sua cidade e rogar para que o projeto “Biomas” também se faça presente no âmbito do município.
Será um “ganha-ganha” para todos: para o ambiente, para a população e para as empresas, que mostrarão sua preocupação e efetiva atuação na mitigação do maior problema que ameaça a humanidade nesta quadra histórica: o aquecimento global, as mudanças climáticas, a própria sobrevivência da vida, à qual só se empresta valor quando ela nos foge.
Cada pessoa ecologicamente consciente pode deflagrar esse processo de conferir escala a uma excelente ideia. Só precisa de um pouco de vontade e de demonstrar sua preocupação com o futuro da Terra.
(Colaboração de José Renato Nalini, Diretor-Geral da Uniregistral, docente da Pós-graduação da Uninove e autor de “Ética Ambiental” e outros livros).
Publicado na edição 10.734 – Quarta, quinta e sexta-feira, 15, 16 e 17 de fevereiro de 2023.





