
“Vencer não é nada, se não se teve muito trabalho; fracassar não é nada se se fez o melhor possível”. – Nadia Boulanger, pianista.
Julio Cesar Sampaio
Há tempos pretéritos, aconteciam, de quatro em quatro anos, na cidade grega de Olímpia, os jogos olímpicos, como uma forma de saudação e reverência ao deus Zeus – deus dos deuses gregos -, não obstante, além de proporcionar o lado da competição entre os gregos, havia ali, intrinsecamente, questões relacionadas à saúde – corporal e mental -, estas, que eram fomentadas como forma de reflexão, mediante apontamentos filosóficos, após a disputa. Contudo, o que mais ficava em voga nas reflexões filosóficas, era relacionar apenas a “felicidade por competir”. A felicidade deles não estava no término de uma linha temporal, no qual começo e meio estavam relacionados e predeterminados, mas no ato em si da disputa. A própria ideia de conquista para eles tinha o sabor exclusivamente da disputa, todavia com seu propósito, sem vangloriar vencedores ou, tão somente, vexar perdedores. Eis o “sabor” para eles dos jogos – a disputa em si!
Cada grande homem e cada grande virtude inflamavam a competição, postergando a sucessão em novas competições, sem impor um vencedor exclusivo, pois assim a sensação de felicidade ficaria comprometida e fugaz.
Passou-se o tempo e hoje vemos uma competição mundial de grandes homens – Copa do Mundo -, grandes virtudes, porém, apenas uma corrida pela Taça, infelizmente…
A competição tornou-se um jogo “geopolítico” (…)
A célebre professora francesa *Nadia Boulanger (França, Paris 1887 – Paris 1979, mencionada no subtítulo), ainda que sua excelência pelo seu trabalho como pedagoga eclipsou em parte os seus dotes de pianista, deixou-nos uma brilhante máxima que reflete o nosso pensar pelo ato de competir, ou seja, como os galhos do salgueiro que se dobram até o chão e jamais se rompem, assim devem ser os atletas e seus ideais:
Competir? Sim! Dobrar? Por que não? Quebrar? Jamais!
Não obstante, quando trazemos em pauta – o poder – como temática vigente, entre os competidores e suas nações, faz-se mister, antes, salientarmos o que, outrora, na Grécia antiga, fora asseverado como veemência: meden agan! (Nada em excesso, em grego)… Doravante, quando o “ilimitado” se perfaz na forma de poder, ou seja, ‘vencer ou vencer’, encontramos, pois, um retrocesso despótico! O poder não é, em sua essência, nem bem nem mal, mas sim aquilo que fazemos dele, com temperança.
Ora, nada mais útil e pertinente que colocarmos na questão contextual, aqui asseverada, o limite como princípio de equidade.
Sabemos que: o que diferencia o veneno do remédio é a dose, ou seja, o limite entre os opostos! (…). A literatura médica (sem generalizações, mas objetivando o raciocínio) orienta-nos a “combater” febres e dores (enxaquecas) com AAS – Ácido acetilsalicílico, não obstante, se, hipoteticamente, descuidarmos por tomar, ao invés de um comprimido, a caixa toda, poderemos causar sangramentos e acidose letal. O bom senso aqui, e sempre assim, prevalecer-se-á!
Por que não, então, o poder e a competição?!
Entrementes, a condição para que qualquer evento, ou um suposto impulso por querer algo, vencer e receber as glórias de seu país, no caso em questão: O Campeão do Mundo! – seja descrito em termos cognoscitivos é que seja possível entendê-los nos padrões da racionalidade… Mas, explicações racionais incluem um elemento causal, pois aquelas são fomentadas como “crenças” e “supostos desejos” que tanto causam a ação quanto a justificam, ou seja: querer é poder, mas sem iniciativa de querer nada teremos!
Em suma, gostaríamos, tão somente, de salientar e fomentar nossa dissertativa aqui mediante os seguintes apontamentos: Copa do Mundo X Felicidade. Exemplifiquemos: – Sem resistência não há evolução! Evolução é resistência, oposição, dificuldade, luta e sofrimento, vitoriosamente superados e harmonizados, ou seja, onde não há luta, não há possibilidade de vitória – e onde não há vitória não há evolução.
Involução é descida fácil. Estagnação é parada inerte. Evolução é subida dinâmica!
Dizia certo poeta inspirado: “Quem passou pela vida em branca nuvem e em plácido repouso adormeceu, foi espectro de homem, não foi homem; Passou pela vida, mas não viveu (…)”. Toda a vida na natureza em evolução está baseada numa espécie de sorriso sadio. É sabedoria evitar o que é evitável – e tolerar calmamente o que é inevitável…
Pois bem, epilogamos e compilamos nossos apontamentos pela síntese, agora, que quando a expectativa dos brasileiros na Copa do Mundo é o ‘hexa-campeonato’, este se perfaz mediante a felicidade como centro das discussões e reflexões pela vitória, podemos contextualizar, de forma imperativa, que quando “todos” estamos na busca da felicidade como égide unânime, chegamos a uma máxima plausível: Não há evolução sem resistência. Destarte, desejamos aos nossos jogadores, em conluio aos brasileiros torcedores inveterados: a vitória, sempre!… Não obstante, vitória pela evolução, ainda que sobre alguma resistência, porém, com infinita persistência para competir pelo prazer de competir, apenas! Salve a livre competição, apenas por competir! Alea jacta est…
(Colaboração de Julio Cesar Sampaio, licenciado em Filosofia, com Pós-graduação no ensino de Filosofia).
Publicado na edição nº 9712, do dia 28, 29 e 30 junho de 2014.




