Decisões têm consequências

José Mário Neves David

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O ano de 2026 se aproxima e, com ele, volta o fantasma das eleições majoritárias para presidência da República, Senado Federal, Câmara dos Deputados, governadores de estados da federação e do Distrito Federal e Assembleias Legislativas. Fantasma, pois nos últimos tempos o resultado das eleições tem gerado pesadelos à população brasileira.

 

A política sempre foi marcada por paixões, mentiras e resultados de curto prazo. Há os brasileiros que querem ter políticos de estimação, pelos quais brigam e defendem, independentemente das circunstâncias. São verdadeiros fãs de políticos. Um contrassenso, já que políticos deveriam ser tratados como nossos representantes e a quem devemos fiscalizar e cobrar, não idolatrar. Nesse cenário, a classe política, com raras exceções, surfa ondas, narrativas e explora paixões, a fim de garantir os votos necessários na próxima eleição.

 

Em um contexto em que ideologias morreram (menos na frente das câmeras e nos discursos em tribunas) e que parcela significativa dos políticos jogam juntos, mesmo em situações de aparente conflito, a fim de satisfazer interesses classistas, a tomada de decisões tem sido cada vez mais orientada para o curto prazo e para aquilo que é melhor para a política, e não para o cidadão e o país. E essas decisões estão ficando cada vez mais perigosas.

 

A concessão desenfreada de benefícios sociais e incentivos fiscais, mesmo para quem não precisaria deles, e a destinação desnecessária de recursos para atividades pouco úteis para o país (como o fundo partidário bilionário e quase sem fiscalização), mostram que a classe política está se importando pouco – ou nada, a depender do personagem – com o futuro da nação e com a responsabilidade fiscal. As decisões de hoje, que em um primeiro momento podem aparentemente representar um ganho para a sociedade, são títulos de penhor para os brasileiros, que serão cobrados com juros e correção monetária em futuro não tão distante. É privilegiar o agora em detrimento do futuro.

 

Essa escolha de gerar resultado agora para resolver o futuro depois é, no mínimo, irresponsável. Estamos deixando para nossos descendentes uma conta que dificilmente será paga sem suor, sangue e lágrimas. É uma atitude covarde, inconsequente e moralmente reprovável. Em nosso contexto social, infelizmente, parcela da população necessita de apoio para sobreviver. O problema reside em duas questões básicas: não há porta de saída para esse apoio, que acaba se tornando permanente e, assim, rifa o futuro do país, inclusive de quem recebe o apoio; e muitas pessoas que não precisariam receber incentivos, recebem mesmo assim. Difícil justificar essa despesa se não pelo viés da compra de votos institucionalizada.

O país não aguenta mais tantos fundos desnecessários e benefícios para muitos, com poucos pagando a conta (e boa parte destes poucos são pessoas comuns, a classe média, não são os “super-ricos”). É insustentável, injusto e afasta qualquer chance de progresso para um país que não ganha produtividade, não gera riqueza e não dá aos mais necessitados a chance de progredir na vida através do trabalho. Nossos políticos precisam entender, mesmo a contragosto, que decisões têm consequências, e cabe a nós lembrá-los disso, nem que seja perante a urna.

(Colaboração de José Mário Neves David, advogado, conselheiro e professor. Contato: jose@josedavid.com.br).

Publicado na edição 10.966 de sábado a terça-feira, 8 a 11 de novembro de 2025 – Ano 101