Devoradoras de pedras

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O Brasil é o segundo maior exportador de minério de ferro do mundo e está entre os 15 primeiros no cobre. Disparadamente a mineradora Vale é a maior produtora de ambos os minerais em âmbito nacional e tem desenvolvido um trabalho de pesquisa profunda para melhorar ainda mais a sua marca, e por consequência, a marca brasileira nas exportações mundiais.
Uma das iniciativas de destaque reuniu a própria mineradora, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a Universidade de São Paulo (USP) em um projeto de recuperação do cobre a partir de dejetos rochosos resultantes do processo tradicional de extração e limpeza.

Tecnologia fundamental

Seria impensável nos dias atuais viver sem alguns elementos básicos como o ferro, o aço e o cobre. Das grandes construções aos itens mais elementares de uma cozinha doméstica, os produtos advindos dos minérios fornecidos pela natureza já fazem parte do nosso cotidiano desde 3.000 a.C., quando sumérios, egípcios e outros povos do oriente começaram a forjar armas, ornamentos e pequenos utensílios que os auxiliassem em suas atividades mais elementares.
Com o passar do tempo o homem devotou a sua curiosidade e habilidade na extração massiva desses produtos, e consecutivamente, colocou-se em linha com processos produtivos de alta qualidade que abarcavam uma enorme diversidade de uso. Até meados do século 20 os metais reinaram de forma quase absoluta como utilidade humana, a partir do qual começaram a perder espaço para os polímeros sintéticos a base de petróleo, ou seja, o plástico.

Transformando a natureza

O processo tradicional de produção de metais varia conforme o tipo de produto obtido, mas a extração e o aquecimento em altos fornos são etapas indispensáveis à maioria dos minérios processados. A obtenção do cobre, por exemplo, utiliza-se da pirometalurgia, a qual requer percentuais de concentração mínimos para apresentar bons resultados. Amostras cujas concentrações se mostrem abaixo de 0,3% não apresentam viabilidade econômica para o método tradicional.
Neste caso, bactérias mineradoras entram em cena e fazem a diferença no processo produtivo, gerando um material com alto teor de sustentabilidade.

 

Rejeitos bem vindos

Em 2004 a Vale colocou em operação a Mina do Sossego situada no município de Canaã dos Carajás, Pará, a um custo de US$1,2 bilhão. Em 2011 ela produziu 109 mil toneladas de cobre puro e 90 milhões de toneladas de detritos. Se conseguisse processá-los, a empresa poderia faturar cerca de US$1,4 bilhão. O problema é que é impossível utilizar o método tradicional da pirometalurgia, dado que a concentração de cobre chega ao máximo de 0,07%.
Pensando nisso surgiu a ideia do projeto que uniu a Vale, o BNDES e a USP, cujo foco é utilizar a biolixiviação na purificação desse material de baixa concentração.
O processo, embora com nome complicado, é simples de entender: (1) as rochas de dejetos são colocadas numa solução aquosa para que haja um meio ideal de multiplicação de bactérias; (2) as bactérias consomem os sulfetos das rochas e produzem, como consequência, ácido sulfúrico; (3) esse ácido, agindo sobre a rocha, ajuda a liberar o cobre que é enviado para tanques; (4) nos tanques, o cobre é extraído por precipitação, ou seja, mais pesado do que demais elementos da solução aquosa, forma um corpo de fundo que é recolhido.
O importante desse processo não é só o potencial econômico que ele pode gerar, mas também a forma sustentável com que ele se comporta. Enquanto a pirometalurgia utiliza altos fornos e emite grandes porções de gases poluentes na atmosfera, a biolixiviação é um processo limpo e de fácil aplicação. É mais um exemplo de sucesso que une a academia e a indústria em um elo onde o conhecimento gerado se transforma em ciência aplicada.

Publicado na edição nº 9788, dos dias 24 de dezembro de 2014 a 5 de janeiro de 2015.