

Faz já algum tempo que pendurei as chuteiras: no dia 25/06/25, deixei a função que exercia na empresa da família e, de lá para cá, venho tocando a vida sem maiores percalços.
Ultimamente, venho pensando em fazer um relato da minha vivência atual, na expectativa de que sua leitura possa ser útil para alguém. Aproveitei o recesso do Carnaval para escrever.
Para esta ligeira exposição da velhice e dos velhos e das suas circunstâncias, feitas a seguir, tomei por base as observações da minha numerosa família; das pessoas com quem convivo e das quais convivi e pelas minhas leituras.
É fato conhecido que os brasileiros estão vivendo por mais tempo. Eu, por exemplo, tenho uma tia com 99 anos e um tio com 97. O caçula dos meus tios tem 87 anos e eu, o sobrinho mais velho, estou com quase 83, a completar em julho próximo.
As pesquisas feitas, em caráter nacional, pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), mostram que o brasileiro médio está vivendo até os 76 anos, consequência direta da melhoria das condições gerais de vida da população brasileira.
Basta um olhar atento para se observar a maior presença dos idosos nas ruas; dirigindo veículos, nos supermercados, nos bancos, nos restaurantes, nas clínicas médicas, nos laboratórios, nas farmácias.
Nas famílias, a presença de mais idosos por mais tempo, afeta o comportamento entre eles, pois o convívio nem sempre é harmônico.
A presença crescente dos idosos, silenciosamente, causará alterações, boas e más, na sociedade brasileira. É situação já bem conhecida em outros países e é o caminho que teremos que trilhar daqui em diante.
No universo dos idosos também acontecem coisas engraçadas. Vou dar um exemplo, citando o professor e filósofo Leandro Karnal, que em uma de suas palestras, que assisti, ele dizia que na velhice existem dois tipos de pessoas: os velhos e os antigos. Os velhos já jogaram a toalha e os antigos continuam na luta.
Com esta definição, eu sou antigo, não sou velho e já informei à família e aos amigos deste fato auspicioso.
Uma situação que me incomoda é o uso das expressões “terceira idade” e “melhor idade”, para se referir aos idosos. Eu, por exemplo, com meus quase 83 anos, não sei se estou na terceira, na quarta ou na quinta idade, de sorte que a expressão “terceira idade” não tem para mim nenhum significado.
A minha melhor idade ocorreu dos meus 30 aos 60 anos, o que deixou a expressão “melhor idade” cair no vazio.
Felizmente, um espírito iluminado encontrou a definição correta, para a questão: “60+”.
Como quase todos os idosos, gosto de conversar, de ouvir e contar histórias. A este respeito um amigo dos tempos de faculdade, me disse que também gosta de conversar, de ouvir e contar histórias. A questão, me disse ele, é que está ficando cada vez mais difícil encontrar quem esteja interessado em ouvir.
À sua maneira, aquele amigo tocou numa questão de fundamental importância para os idosos: a comunicação.
Sabe-se que boa parte dos idosos tem dificuldade em comunicar-se com as gerações mais novas, muitas vezes da própria família.
Esta situação, se continuada, poderá levar o idoso ao estado da solidão, que é quando se vive sozinho ou sente-se sozinho.
Estamos vivendo tempos em que já foi dito que o homem nunca esteve tão conectado e nunca se sentiu tão solitário.
Na minha pequena biblioteca tenho o livro “O século da solidão” em que a autora discorre sobre a solidão do homem moderno e afirma que “a solidão tornou-se a condição definidora do século XXI”. Definitivamente, além da saúde, a solidão é o estado do idoso que mais o afeta.
Com as pessoas vivendo mais e melhor e aposentando-se ou parando de trabalhar mais cedo, o uso do tempo livre, agora disponível, passou a ser determinante da qualidade de vida dos idosos nesta fase da vida.
Tem sido comum o idoso idealizar situações futuras, como, por exemplo, ter seu próprio negócio ou passar a viver com uma qualidade de vida que esteja além das suas possibilidades.
Por falta de maior conhecimento, de planejamento, de resiliência, frequentemente tudo se transforma numa enorme frustração.
Um amigo médico há tempo me disse que esta história de se aposentar e viver na praia tomando caipirinha, não dura um mês.
Outra questão muito importante neste período da vida é saber trabalhar com o dinheiro.
Na verdade, o que cabe discutir quando o assunto é o uso do dinheiro na velhice é o apego que o idoso tenha ao mesmo. É quando se pode ser avarento ou perdulário.
Desde os tempos de Jesus Cristo sabe-se que os avarentos são pessoas infelizes e que podem infelicitar quem estiver ao seu redor.
Na Bíblia está escrita outra referência ao dinheiro, quando diz “é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico ir para o céu”.
Pesquisei a palavra “camelo” e encontrei que, na época, era o nome dado a um fio de lã, grosso.
Pessoalmente, interpreto estas duas citações como extremas, ficando entendido que o equilíbrio é a condição que deve ser almejada.
Por outro lado, esta história de dizer que o dinheiro não traz felicidade é balela e hipocrisia.
Pode-se colocar a questão sob outro prisma: alguém sem dinheiro poderá ser feliz? Sim. Pode. Os santos da igreja são os melhores exemplos.
Da lista de assuntos que programei para este texto restam dois para serem comentados.
O penúltimo é o entusiasmo pela vida. Este é o tema que mais aprecio: sou entusiasta pela vida. O entusiasmo deve ser conquistado. Não é fruto do acaso nem é uma graça divina. É o resultado da escolha continua e permanente pelo justo, pelo bom e pelo belo, durante uma vida inteira, em tudo aquilo que ela oferecer.
O último assunto deste texto talvez seja o mais difícil: trata-se da embaraçosa conversa que todo idoso precisa ter com aquela senhora que anda por aí vestida de preto, com uma foice na mão: a finitude.
Pessoalmente, já me acertei com ela e tenho convicção de que o idoso que não o fizer em tempo terá uma triste finitude. Mas isto será assunto para uma eventual outra oportunidade.
No início deste texto, fiz duas colocações. Na primeira, afirmei estar pensando em fazer um relato e na segunda, disse que gosto de contar histórias.
Pois bem, o relato proposto acaba de ser feito. Quanto a contar histórias, o leitor atento certamente percebeu que não fiz aqui nada a não ser contar histórias.
(Colaboração de José Mario Paro, produtor rural em Bebedouro).
Publicado na edição 10.989, quarta, quinta e sexta-feira, 25, 26 e 27 de fevereiro de 2026 – Ano 101




