

Uma particularidade chama atenção em uma fotografia inserida no Relatório da Santa Casa de Misericórdia de Bebedouro elaborado em 1935 pelo Cônego Aristides da Silveira Leite, então provedor daquela instituição de saúde. No registro fotográfico, entre os médicos que compunham o corpo clínico do hospital, observa-se que um deles é negro, algo incomum na época e mesmo atualmente.
Tratava-se do doutor Zacharias de Oliveira Bahia, que respondia como diretor da equipe médica que era formada pelos operadores (cirurgiões) doutores João Cambauva e Sebastião Conrado e os clínicos gerais doutores Plínio de Brito, Ramiro de Souza Lima, Bento Gomes Ferraz, Azael Simões Leistner, Rubens Furquim, Eugênio Gomes de Mattos, Francisco Paraíso Cavalcanti e Moacyr Deleuse, além do próprio diretor.
Conhecido profissionalmente como Dr. Bahia, nascera justamente no estado que leva o mesmo nome, tendo concluído o curso de Farmácia em 1907 e de medicina em 1912, em faculdades que atualmente compõem a Universidade Federal da Bahia, em Salvador.
Em março de 1913 migrou para o estado de São Paulo, desembarcando no porto de Santos. Sua chegada em Bebedouro deu-se no ano de seguinte, após período na cidade paulista de Guariba, conforme nota publicada no Jornal de Bebedouro: “Fixou residência entre nós o snr. dr. Zacharias de Oliveira Bahia, ilustrado facultativo, que abriu seu consultório, provisoriamente no Hotel Amadeu.”
Sua vinda foi decorrente da inauguração da Santa Casa de Misericórdia, ocorrida em janeiro daquele mesmo ano, instituição hospitalar a qual se manteve vinculado durante todo o período em que residiu na cidade.
Instalou um consultório próprio anexo à sua residência, localizada no então denominado Lago do Jardim (na esquina das ruas XV de Novembro e Francisco Inácio). De acordo com anúncio publicado na imprensa em 1916, Dr. Bahia fora “Ex-interno da Clínica Médica e do Hospital de Santa Izabel e auxiliar da 9ª Inspectoria de Hygiene do Estado” (da Bahia), tendo como especialidades “Molésticas dos apparelhos circulatório, pulmonar e gastro-instestinal, moléstias das creanças; cirurgiaa geral.”
Em maio de 1921, devido à venda do antigo imóvel para construção da suntuosa agência do Banco do Brasil, precisou mudar de endereço, instalando-se na esquina fronteiriça, onde funcionara a Relojoaria Peirone. Posteriormente adquiriu o prédio localizado ao lado da agência do Banco Francês e Italiano (atual endereço da filial do centro da Drogasil), para onde transferiu sua moradia e consultório clínico.
Ainda na área da saúde, destaca-se que em 1922, no mandato do prefeito capitão Cícero da Silva Prates, foi nomeado e exerceu a função de Inspector de Higiene Municipal.
No entanto, no período em que residiu em Bebedouro sua atuação não se restringiu ao campo médico, mas participou significativamente da vida social da cidade. Em 1917, fez parte da comissão responsável por implantar o escotismo no Grupo Escolar. Reconhecido como eloquente orador, era frequentemente convidado para proferir discursos em eventos como inaugurações, formaturas, recepção de autoridades e outros, sendo que algumas de suas palestras foram publicadas na imprensa local.
No campo religioso, entre outros movimentos, foi membro ativo do núcleo local da Ação Católica Brasileira. Em meados da década de 1930 atuou no campo político como diretor do diretório do partido de extrema direita Ação Integralista Brasileira, sendo indicado como candidato ao legislativo municipal, não sendo eleito, porém.
Após cerca de 26 anos entre os bebedourenses, em março de 1941 ocorreu o falecimento do Dr. Zacharias Bahia. As cerimônias póstumas tiveram numerosa participação de público, incluindo autoridades e associações locais. Houve a celebração de missa de corpo presente na Igreja Matriz, rezada pelo bispo diocesano D. Antônio de Assis.
Na abertura do seu testamento, foi constatado que Dr. Bahia havia destinado sua coleção de quase 600 livros para a Biblioteca Municipal de Bebedouro que se encontrava em formação, constituindo desta forma o acervo inicial daquela instituição.
Com a constituição do bairro Jardim Casagrande na década de 1970, uma de suas ruas recebeu a denominação de Dr. Bahia, homenageando o ilustre médico, cuja atuação marcou a história bebedourense.
Publicado na edição 10.968 de sábado a quarta-feira, 15 a 19 de novembro de 2025 – Ano 101




