
Verdadeiro truísmo dizer que a educação brasileira claudica e não prepara as novas gerações para o mundo competitivo e inovador. A sociedade contemporânea precisa de eficiência e ensino anacrônico, baseado em transmissão de informações e está muito longe de formar os profissionais necessários para os desafios presentes e do futuro.
O Brasil tem oferecido a escola convencional, muito distante das necessidades do presente e completamente alheia às urgências do futuro. Não se estimula a pesquisa pura nas ciências duras, não se atualiza o ensino da matemática, da física, da química, da biologia. Enfatiza-se o rol das humanidades, multiplicando-se as escolas de nível “superior” que formam bacharéis destinados ao subemprego e à decepção.
Enquanto isso, países mais adiantados se empenham a treinar sua juventude para a era digital, em que já mergulhamos. A USP e a Fapesp, duas exceções na mediocridade predominante, sabem disso. Tanto que participaram da Feira VivaTech, um dos mais exitosos eventos de tecnologia europeia. É um encontro para prestigiar o ecossistema de startups e inovações e participaram catorze mil startups.
Dezenove startups da USP e Fapesp ocuparam o estande do Brasil e apresentaram aos mais de cento e oitenta mil visitantes, de cento e quarenta países, tecnologias disruptivas nas áreas de saúde, agricultura, sustentabilidade, clima, energia, meio ambiente, mobilidade e inteligência artificial.
O tema “Estratégias do Estado de São Paulo para um Hub Global de Tecnologia” foi um dos apresentados e, conforme declarou o Reitor Carlos Gilberto Carlotti Júnior, “a USP sempre fez inovação, mas nos últimos anos temos acentuado essas atividades. Queremos estar cada vez mais próximos da população, seja por meio de políticas públicas, seja na produção de soluções para as cidades”.
É disso que o Brasil precisa: de uma Universidade antenada com as necessidades e urgências de seus municípios, instância a mais importante para o enfrentamento das emergências climáticas. Ninguém mora na União ou no Estado. As pessoas nascem, vivem e morrem na cidade. Esta merece toda a atenção da ciência e do governo. E a juventude brasileira precisa de mais ciência e de mais estímulo para criar suas startups.
Lygia, a eterna
O vestibular da USP em 2026 oferece aos vestibulandos a oportunidade de ler ou reler Lygia Fagundes Telles, a nossa maior romancista. O livro escolhido foi “As Meninas”, de 1973, escrito no auge do autoritarismo. O pesquisador Fernando Breda analisa a obra, hoje muito distante do mundo da geração “nem-nem”, que pouco lê e que talvez desconheça a importância de Lygia.
Ele recorda que “as meninas residem em um pensionato de freiras, que está praticamente vazio. No período em que transcorre o romance, há uma greve na universidade, e a maioria dos estudantes voltou para suas cidades”. São as meninas que contam a história. “Os estudantes podem pensar a história a partir de uma imagem que está no livro. Ou seja, uma pirâmide ou um triângulo, se o leitor preferir, no qual estão situadas em cada vértice as três personagens que estruturam o andamento do enredo: Lia, Ana e Lorena”.
As reflexões das jovens, seus pensamentos, são mais importantes do que o próprio enredo. O livro é dividido em doze capítulos, cada qual contemplando uma das garotas. Fernando Breda não se arrisca a dizer se os vestibulandos de 2026 são muito diferentes da juventude dos anos setenta. Mas propõe que os jovens leitores leiam “As Meninas” “como um espelho quebrado, no qual podem exercitar um jogo de identificação e desidentificação com as vidas das personagens”.
Lygia, com quem tive o privilégio de conviver, sempre ansiava por leitores. Em todas as suas palestras, clamava: “Leiam-me! Leiam-me! Eu preciso de vocês!”. Sobre Lygia, falecida em 3 de abril de 2022, críticos literários de todo o mundo a consideraram uma das notáveis prosadoras da literatura brasileira. “As Meninas” foi livro traduzido e publicado na Argentina, Estados Unidos, Alemanha, Holanda, França, Itália, Sérvia, Japão e Eslováquia. Foi adaptado para o cinema em 1995, sob a direção de Emiliano Ribeiro, com as atrizes Adriana Esteves, Drica Moraes e Cláudia Liz.
Quem escreveu como Lygia, com o seu profundo conhecimento sobre a alma feminina, viverá eternamente. Sorte de quem mergulhar no prazer de ler “As Meninas” e de toda a obra dessa paulistana que é uma das maiores legendas desta terra de Piratininga.
(Colaboração de José Renato Nalini, reitor da uniregistral, docente da Pós-graduação da Uninove e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo).
Publicado na edição 10.945, quarta, quinta e sexta-feira, 20, 21 e 22 de agosto de 2025 – Ano 101





