

Em Três Graças, Vinicius Teixeira comprova qualidade rara em atores de personagens secundários: a capacidade de puxar a cena para si sem deslocar o eixo da narrativa. Vandilson, um dos traficantes da Chacrinha, poderia facilmente ser apenas mais um rosto dentro da engrenagem do núcleo comandado por Bagdá, interpretado com magnetismo por Xamã. Mas o ator não permite isso. Ele entende o jogo da dramaturgia televisiva, onde cada nível da escala hierárquica (protagonistas, coadjuvantes, participações) tem funções específicas, e ainda assim, transborda carisma sempre que entra em quadro, afirmando sua presença sem romper a lógica de que Vandilson foi criado para ser um personagem de apoio.
Há atores que esperam o texto lhes dar destaque. Teixeira faz o oposto: ele cria destaque no subtexto. Em cada aparição, ele literalmente agarra a oportunidade de se comunicar com o público, quase dizendo “estou aqui” com um olhar, um gesto ou a construção corporal precisa de alguém que vive sob ordens e vigilância naquele território comandado por Bagdá. Sua parceria em cena com Xamã é particularmente reveladora: há química, ritmo e entrega. Xamã domina a cena pelo protagonismo do núcleo, mas Teixeira domina pela astúcia de construir camadas dentro do espaço que lhe cabe.
As trocas com Lucas Righi, que interpreta Alemão, também funcionam como ponto para seu carisma: juntos, os dois encontram compasso e cumplicidade suficientes para transformar minutos de tela em momentos memoráveis. Vandilson não é, por conceito, um personagem expansivo. Mas Vinicius Teixeira o expande, mostrando que talento é saber crescer nos interstícios. E é evidente que ele busca esse crescimento o tempo todo: é um ator atento, pulsante, que recorta da dramaturgia cada chance possível para evoluir dentro da novela.
Essa habilidade de equilibrar intensidade, humor e presença cênica não surge agora. Teixeira já havia demonstrado sua versatilidade no longa O Melhor Amigo, de Allan Deberton, onde interpretou Lucas, protagonista de uma história que mescla romance, confusão emocional e musicalidade com estética queer nordestina. No filme, o ator entrega não apenas carga dramática, mas também uma veia cômica orgânica, que nasce de situações cotidianas, do estranhamento e da fragilidade emocional do personagem.
O longa, baseado no curta de 2013, se vale de cores vibrantes, direção de arte solar e um conjunto narrativo que mistura musical, romance e drama psicológico, e é dentro desse mosaico que ele se destaca ainda mais. Lucas é um homem preso em si mesmo, alguém que foge, hesita, silencia e explode em pequenas doses. O ator constrói isso com delicadeza que torna palpável a jornada emocional do personagem.
Sua performance tem nuances, ritmo, melancolia e presença. Ele sabe ser tímido sem ser apagado; sabe ser intenso sem exagerar; sabe ser engraçado sem desrespeitar o drama. É um ator completo, daqueles que entendem o tom da obra e se moldam a ele, seja no turbilhão sensorial de Canoa Quebrada, seja na crueza das vielas da Chacrinha.
Vinicius imprime identidade a tudo o que toca. Ele é desses atores que não precisam de protagonismo para deixar marca. E talvez seja isso o mais fascinante: Teixeira é um artista que trabalha com fome, com vontade de cena, com entrega. Vandilson ainda tem espaço para crescer em Três Graças, e a novela certamente se beneficiaria disso. Mas mesmo que a trama não o leve adiante, o que já está ali em cada aparição mostra muito: um ator que sabe jogar, que sabe ocupar, que sabe brilhar nos detalhes.
Publicado na edição 10.977 de 20 de dezembro de 2025 a 13 de janeiro de 2026 – Ano 101




