
A tendência em muitos de nós, nestes tempos estranhos que vivenciamos, é ver o mundo com pessimismo. Tudo está pior. Violência, carestia, falta de seriedade na vida pública, emergência climática, traições e falsidades. Mas é preciso reagir. Na verdade, hoje vivemos mais do que ontem. Pelo menos, aqueles que se cuidam e, lamentavelmente, os que têm dinheiro para pagar planos de saúde que só sabem se reajustar e procrastinar a liberação para exames mais dispendiosos.
O drama do Brasil é que as pessoas estão ficando mais toscas. Não gostam de ler. Encantam-se com os celulares. Desde os mais rústicos, até os mais propensos a se tornarem eruditos. Algo que não acontece, porque optam pelas redes sociais.
O conselho para quem não está satisfeito é ler livros. Como diz Simon Kuper, no “Financial Times”, “um livro ainda é a melhor tecnologia para transmitir a complexidade do mundo”. A complexidade evita a ideologia, o fanatismo, a polarização cada vez mais burra e mais violenta. Quem fala “com certeza” várias vezes numa conversa, tende a enxergar conspiração e a ser vítima algorítmica online.
Não usar muito as telas é outro bom parâmetro. Sem telinhas, a mente cria liberdade para vagar e fazer novas conexões. Caminhar. Olhar a natureza. Plantar uma árvore. Pedir mais arborização ao Poder Público.
Um bom conselho é fazer o seu trabalho, não o do mundo. Fazer bem feito o que você ficou encarregado de fazer. Não pretender consertar o Universo, mas a sua gaveta, o seu quarto, o seu espaço de trabalho. Ser multidisciplinar. Interessar-se por tudo. Não ignorar outras sendas. É preciso cultivar uma capacidade de processamento sem precedentes, pois o conhecimento se acumulou e quem se dispuser a enxergar esse panorama, terá visão bem ampla da vida.
É bom ser humilde. Pensar sempre que você pode estar errado. Os medíocres fazem questão de confirmar as suposições iniciais. O “viés de confirmação” inibe alcançar novos ou mais profundos insights. E continuar a aprender com todos. Todos nos tornamos mais ou menos inteligentes ao longo da vida, de acordo com os esforços despendidos para pensar. Os mais sábios são os que sabem aprender com todos, até com os mais simples e aparentemente rústicos. Ouvir mais é um inteligente recarregamento das próprias energias. O mundo ainda tem beleza. É só aprender e saber enxergá-la.
Piora de hora em hora
Em ano de COP30, lamentável a situação da Amazônia brasileira. Em abril se noticiava a alta de 18% no desmatamento entre agosto e março. Em junho, o anúncio de que o desmate atingiu 92% em maio.
O desmate acumulado de agosto de 2024 a março de 2025 atingiu área de 2.296 km2, praticamente a dimensão da capital paulista. Imagine-se uma São Paulo inteira em chamas! Era a sexta maior da série histórica para o período.
Quem apurou a cifra foi o Sistema de Alerta de Desmatamento – SAD, do Instituto Imazon. Já segundo o Ministério do Meio Ambiente, os dados oficiais são fornecidos pelo sistema Deter, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – Inpe, ligado à pasta de Ciência e Tecnologia.
Há uma diferença entre desmatamento e área degradada. Por desmatamento se entende a remoção total da cobertura vegetal. Já a degradação decorre de queimadas e extração madeireira. Ambas impactam a biodiversidade, a produção de água e o estoque de carbono da floresta. Além de facilitar novos incêndios.
Já a tristeza constatada em maio foi a alta de quase cem por cento no desmatamento, comparado com o mesmo mês de 2024. A promessa de zerar o desmatamento em todos os biomas até 2030 está muito longe de ser obtida. De acordo com o Inpe, o peso dos incêndios florestais no desmatamento está crescendo. As queimadas foram responsáveis por 51% da área que perdeu floresta em maio. Foram quase mil quilômetros quadrados, uma imensidão. Embora os negacionistas costumem relativizar esses números, dizendo que a Amazônia é gigantesca.
Ela está desaparecendo. Essa a realidade que os negócios, a ambição, o lucro excessivo, o imediatismo, o egoísmo e até a ignorância não deixam perceber a gravidade.
Qual será o discurso oficial em Belém, quando chegarem os estrangeiros que têm conhecimento da tragédia e cobrarão o compromisso brasileiro de honrar os acordos internacionais?
Não há maior crime contra a humanidade do que privá-la de continuar a existir. É isso o que os criminosos estão fazendo com o Patrimônio que este povo recebeu gratuitamente e não soube preservar. O castigo virá. Melhor ainda: já está sendo infligido, principalmente sobre inocentes.
(Colaboração de José Renato Nalini, reitor da Uniregistral, docente da Pós-graduação da Uninove e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo).
Publicado na edição 10.936, quarta, quinta e sexta-feira, 16, 17 e 18 de julho de 2025 – Ano 101





