Entre o que foi vivido e o que ainda pode ser

Pedro Henrique Fernandes Medeiros

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Articulista – Pedro Medeiros, bebedourense, psicólogo clínico e novo articulista da Gazeta, passa a contribuir com reflexões sobre saúde mental, comportamento e existência a partir da psicologia fenomenológico-existencial.Foto: Arquivo pessoal.

Virada de 2025 para 2026: fim de 365 dias vividos para vivenciar o começo de mais 365 dias. Esse período de transição costuma ser apresentado como um tempo de celebração, festas e felicidade. É assim que aparece nas redes sociais, nos comerciais de televisão e nas propagandas, como se todos estivessem realizados, plenamente satisfeitos com a própria vida e ambiciosos para o ano que se inicia.

No entanto, a realidade pode ser bem diferente daquilo que vemos nas telas. Para muitas pessoas, esse não é um período fácil. O início de um novo ano pode intensificar sentimentos de tristeza, frustração ou inadequação. As redes sociais, muitas vezes, funcionam como vitrines de vidas idealizadas, produzindo comparações que tendem a ampliar o sofrimento de quem consome esse conteúdo.

Talvez este texto seja, sobretudo, para quem atravessa esse momento com algum “peso no peito”. Para quem se sente atrasado, aquém ou insuficiente diante das expectativas que parecem estar por toda parte. O que gostaria de dizer é que a vida é muito maior do que a “grama do vizinho” e que o que você vive hoje não define quem você é. Trata-se apenas de uma possibilidade de ser entre tantas outras possíveis. Não se trata de dizer que “basta querer para poder”, mas de lembrar que somos seres em movimento, inacabados, em constante transformação; não somos seres imutáveis e fixos.

É preciso respeitar a transitoriedade da vida, da transformação e, se fizer sentido, da mudança. O sofrimento também faz parte do percurso e pode ser olhado com serenidade e cuidado, como algo que pede escuta, e não julgamento.

Vale lembrar: você fez o melhor que pôde com as condições que lhe foram dadas. Mesmo quando não esteve bem. Reconhecer isso é um gesto de honestidade consigo mesmo.

Convido os leitores a olharem, com gentileza e generosidade, para tudo aquilo que foi vivido. Afinal, foi mais um ano enfrentado. Houve alegrias, tristezas, encontros, perdas e aprendizados. Houve afetos. E houve conquistas — ainda que nem todas sejam visíveis e mensuráveis. Reconhecer o próprio processo é mais importante do que se comparar com o percurso do outro.

Para o ano que se inicia, é preciso cuidado com expectativas e metas irreais. Além disso, lembrar que comparar-se excessivamente tende a produzir mais sofrimento do que crescimento. O outro é outro; eu sou eu.

Vi recentemente um post que dizia: “Alguém já falou bem de você pelas suas costas. Alguém já te indicou para algo importante. Alguém já contou uma lembrança com você enquanto sorria”. Nem só de pessoas ruins é feito o mundo. A crença de que tudo é competição muitas vezes serve apenas para nos isolar.

Portanto, que em 2026 possamos ser mais gentis conosco e com os outros, mais atentos ao que realmente importa. Que possamos alimentar, como projeto comum, o amor ao próximo, o acolhimento das diferenças, o diálogo respeitoso e a compaixão. Assim desejo aos leitores um ano de mais responsabilidade, fraternidade e compromisso social, para que, juntos, possamos construir uma vida mais justa, mais honesta e mais prazerosa de viver.

(Colaboração de Pedro Henrique Fernandes Medeiros, bebedourense, psicólogo clínico (CRP 06/217706), graduado pela PUC-Campinas, iniciando mestrado em Psicologia Social pela UERJ em março de 2026. Atualmente cursa especializações lato sensu em: Psicologia Clínica na Perspectiva Fenomenológico-Existencial, IFEN, 24/26; Intervenção na Autolesão, Prevenção e Pósvenção do Suicídio,Vita Alere, 24/26; concluiu Extensão Universitária: Promoção da Saúde Mental e Prevenção do Comportamento Suicida/Violência em Contextos de Vulnerabilidade, 22/23).

Publicado na edição 10.979 De sábado a terça-feira, 17 a 20 de janeiro de 2026 – Ano 101