

Recentemente lançado nos cinemas brasileiros, ‘Entrevista Com o Demônio’ fala de um talk show noturno chamado Night Owls, ou na tradução, ‘Corujas da Noite’, e é apresentado por Jack Delroy, papel de David Dastmalchian que faz de tudo para conquistar audiência e, para isto, apresenta situações cada vez mais sensacionalistas até que um dia resolve entrevistar o próprio demônio, que está possuindo uma menina.
Retratos da realidade ou não, o longa que se passa na década de 70, fala de uma busca incansável pela audiência que domina todos os programas de televisão do mundo inteiro até hoje e os conteúdos sensacionalistas seguem sendo apresentados aos telespectadores sem nenhum pudor.
O interessante do filme é que ele mergulha, totalmente, no universo da televisão dos anos 70 e de como ela era feita, isto especificamente dos bastidores da TV americana nestes estilos de programa, que fique claro. O público assiste ao filme como se estivesse assistindo ao talk show apresentado pelo protagonista, com imagem propositalmente chuviscada e sem a qualidade que temos hoje, tudo para que possamos nos sentir naquele período. Quando o intervalo comercial entra, o público vê imagens em preto e branco e isto faz com que consigamos distinguir quando o programa está no ar e quando não, outra sacada inteligente do diretor.
Os 93 minutos de arte exploram bem seus personagens com um único cenário, o palco do programa. O tempo todo, vemos como o apresentador comanda seus entrevistados esotéricos e suas relações nos bastidores, seja com seu produtor, seu assistente de palco e até mesmo com a escritora ousada que fez um estudo sobre o diabo no corpo da jovem Lilly, papel de Ingrid Torelli. Todos estes personagens são expostos ao público que fica se equilibrando na linha tênue entre o que é confortável de se assistir e o que incomoda, o que choca e o que causa aflição no telespectador, nada muito distante do que vemos hoje, até mesmo nos programas brasileiros, afinal, parece que a cada nova década está realmente valendo tudo pela audiência.
Para citar um ponto negativo que me impede a nota máxima ao filme, a barriga é visível. O longa, apesar de apresentar bem seus personagens e como, ao longo do tempo, o sensacionalismo foi tomando conta do programa de Delroy – que chegou a levar sua mulher no ápice de um câncer para ser entrevistada – e parece não andar. O público fica cansado de assistir a um programa e o verdadeiro sentido de estarmos ali, na cadeira do cinema, que é ver um demônio sendo entrevistado, fica para o final do segundo ato, começo do terceiro, quando o público já está há mais de uma hora assistindo.
Quando o terceiro ato começa e o demônio se revela mostrando que Lilly está realmente possuída, o filme anda normalmente, mostra o que se propôs e deixa todo mundo fascinado. É importante ressaltar, aqui, que os efeitos especiais utilizados remetem muito ao que era possível fazer naquela época, não tem nada da década de 2020 no filme, nas ações dos personagens, é como se realmente estivéssemos no cinema, assistindo a um documentário sobre um fato demoníaco que aconteceu em um programa de televisão, ao vivo, nos anos 70.
Genial, com um sensacionalismo que se transforma em terror, o programa pode não ter sido o recordista de audiência, mas certamente entrou para a história. Mas, qual o preço de precisar ir tão além para atrair audiência? O final revela que ele é alto.
Com ideias geniais, atuações à altura do proposto, o único defeito de ‘Entrevista com o Demônio’ é demorar em entregar as peças-chaves a que se propôs. Para quem vê o trailer, chegar ao cinema com sangue nos olhos e por isto existe certa frustração. Para um bom terror, tem que ter susto e o filme também peca neste sentido, mas isto não estraga a obra e não o coloca no ranking de piores filmes de terror destes novos tempos. Vale a pena assistir, mas talvez valha ainda mais esperar sair em algum streaming.
Publicado na edição 10.858, de sábado a terça-feira, 20 a 23 de julho de 2024 – Ano 100




