

Em um país que envelhece em ritmo acelerado, é urgente repensar a forma como imaginamos a velhice. Muito além de perdas ou limitações, descobrir o envelhecimento como uma fase criativa, cheia de arte, expressão e conexão, é uma mudança de paradigma — esse é o cerne do envelhecimento criativo.
Incentivar atividades como pintura, escrita, música, dança ou teatro não é apenas oferecer passatempo: é abrir caminho para a saúde emocional, a memória ativa, a autoestima renovada e uma identidade vital. Gene D. Cohen, renomado gerontólogo norte-americano, demonstrou que a prática artística regular na terceira idade reduz sintomas de depressão e ansiedade, melhora a cognição, diminui o uso de medicações e fortalece o sentimento de pertencimento.
No Brasil, essa transformação já está acontecendo em lugares como universidades e centros culturais, onde oficinas de escrita autobiográfica facilitam resgatar histórias pessoais e coletivas, ressignificando trajetórias. Grupos de teatro, corais e ateliês de pintura também têm criado espaços de convívio, expressão e empoderamento para quem está na terceira idade.
Essa ideia vem sendo abraçada por muitas cidades do interior, como Bebedouro, que conta com ações e programas voltados à população com mais de 60 anos. Um exemplo é a participação ativa no JOMI — os Jogos da Pessoa com 60+, onde são disputadas 15 modalidades esportivas, entre elas atletismo, natação, vôlei adaptado, dança de salão e até xadrez. A professora Dany Toledo, da rede municipal, explica que as atividades esportivas vão muito além da competição: elas incentivam autonomia, autoestima, socialização e saúde integral. Embora aberto a pessoas com mais de 40 anos em algumas modalidades, o Jomi é exclusivamente voltado para atletas acima dos 60, e muitos treinam com amigos, personal ou em grupos comunitários. É um verdadeiro exemplo de como políticas públicas locais podem promover a longevidade mais ativa e feliz.
Além da dimensão artística e esportiva, o envelhecimento criativo tem sido refletido de modo inspirador na TV: desde 6 de julho, a jornalista Renata Ceribelli apresenta no Fantástico a nova temporada do quadro “Prazer, Renata 60+”. Em quatro episódios, ela convida o público a repensar o que significa envelhecer, dialogando com sua mãe de 93 anos e sua filha de 34 — três gerações em cena que revelam visões diversas sobre desejo, autonomia, saúde, sexualidade e prazer em idade avançada. Ela provoca uma pergunta poderosa: “O que você quer ser quando envelhecer?”, desafiando a ideia de que a velhice é um capítulo de desistência, e propondo em seu lugar uma narrativa de transformação, curiosidade e continuidade. No episódio final, a série aborda a longevidade saudável com o geriatra Mauro Ferreira, desmontando mitos e mostrando que viver com qualidade e propósito é possível — e desejável — até os 100 anos.
Essa narrativa midiática se alinha perfeitamente à realidade de muitas pessoas que, ao envelhecerem, não desejam parar, mas sim transformar. Ao mostrar vidas cheias de cor, humor, afeto e possibilidades, resgatamos o velho, ressignificando-o como uma fase fértil para criação, conexão e autoafirmação.
Num relato poético, Guimarães Rosa dizia que a vida “esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa… o que ela quer da gente é coragem”. Talvez o envelhecimento criativo nos convide justamente a isso: coragem para pintar, dançar, competir, se encantar — e reinventar o que significa envelhecer. Com arte, com corpo em movimento, com brilho nos olhos e com muito mais vida no caminho.
(Colaboração de Bruna Momente Covielo Assunção, cursando Especialização em Gerontologia no Instituto Albert Einstein).
Publicado na edição 10.944, de sábado a terça-feira, 16 a 19 de agosto de 2025 – Ano 101




