
Ao longo de minha carreira no mercado financeiro, tive muitas oportunidades de aprender, na prática, sobre a eficiência de uma boa gestão de pessoas. E não raro, essas práticas de gestão haviam sido adotadas por iniciativa dos donos, que influenciavam de forma positiva os gestores, e que por sua vez, incentivavam os funcionários, num ciclo virtuoso de pertencimento e inclusão, o famoso “espírito de equipe”.
Numa ocasião, me juntei a um grupo de recém-contratados que estava começando a trabalhar numa grande exportadora de grãos do Brasil, atrás apenas das grandes multinacionais. Iríamos conhecer as operações de geração de energia hidroelétrica, conduzidas por uma subsidiária dessa empresa, num processo de diversificação de atividades.
O grupo, de uns 4 ou 5 recém-contratados (mais eu, como “visitante” representando um dos principais bancos da empresa), era liderado pelo CEO (presidente) e pelo CFO (diretor de finanças). Juntou-se ao grupo, como representante dos acionistas, o Presidente do Conselho de Administração, também ele acionista. Sua participação me demonstrou como eles consideravam importante acolher bem os colaboradores que estavam se juntando à empresa.
Estávamos numa pequena van, no meio de campos enormes de soja, conversando, e eis que um dos recém contratados, sentado ao lado do Presidente do Conselho, perguntou: “De quem é essa soja?”. O Presidente, muito naturalmente, respondeu: “Essa soja é nossa!”. Aquele momento foi para mim uma das grandes lições de gestão de toda a minha carreira: a da inclusão.
Você pode remunerar bem, mas dificilmente sua grade salarial se afastará daquilo que o mercado paga. Você pode oferecer benefícios generosos, que atrairão bons profissionais, mas podem ser insuficientes para retê-los. E mesmo que sua região ofereça poucas possibilidades para seu funcionário deixá-lo, a tendência é que, com o tempo, a performance dele seja apenas satisfatória, atingindo aquilo que você, como empregador, espera, nada mais, nada menos.
Em uma atividade alto risco intrínseco como o Agronegócio, é fundamental que os funcionários tenham performances extraordinárias, contribuindo ativamente para o sucesso e lucratividade do negócio. Dentre os vários tópicos da gestão “da porteira pra fora”, o da inclusão dos colaboradores; a definição clara das suas funções e objetivos; o acompanhamento e avaliação da performance, e consequentemente, sua recompensa, mostram-se cada vez mais importantes, em um setor onde ainda são bastante raros, sobretudo na produção primária.
Começar trabalhando o sentimento de pertencimento e de inclusão, criando vínculos de confiança através de uma frase simples, porém sincera – “essa soja é nossa!” – pode ser um instrumento poderoso de evolução e um grande passo na jornada do seu negócio rumo à sustentabilidade e perpetuação.
(Colaboração de Oswaldo Junqueira Franco, economista pela FEARP-USP e MBA em Finanças Corporativas pelo IBMEC, sócio da Agronomics, consultoria de gestão especializada no Agronegócio).
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Publicado na edição 10383, de 6, 7 e 8 de abril de 2019.




