

Hegemônico na primeira metade do século passado, gradativamente o transporte ferroviário foi perdendo o protagonismo em decorrência do processo de modernização do país que incluiu o direcionamento de recursos para a implantação da estrutura rodoviária, especialmente na região sudeste.
Neste contexto, com o fim da ditadura varguista e o processo de democratização a partir de 1945, tornou-se recorrente a ocorrência de manifestações dos empregados das empresas ferroviárias, incluindo diversas greves, cuja pauta principal sempre estava associada à reivindicação de aumentos salariais.
No caso da Companhia Paulista de Estrada de Ferro, a greve ocorrida em 1959 pode ser indicada como uma das maiores. O movimento foi deflagrado à zero hora do dia 14 de abril, após o insucesso nas negociações entre trabalhadores e diretoria da empresa para que houvesse aumento no valor do salário-mínimo e equiparação salarial com as ferrovias estatais.
Conforme anunciado pelo Sindicato dos Trabalhadores nas Empresas Ferroviárias da Zona Paulista, a mobilização poderia atingir mais de uma centena de cidades do interior, além de pequenas estações e lugarejos que deixariam de ser servidos pelo trem, interrompendo o transporte de passageiros e a entrega de grande quantidade de artigos de primeira necessidade.
Enquanto centro regional, com um entroncamento ferroviário composto por três ramais, Bebedouro foi apontada como uma das principais cidades interioranas atingidas pelo movimento grevista. Na noite da véspera do início da greve, foi realizada reunião preparatória na sede da Sociedade Operária Beneficente, com alinhamento das ações dos trabalhadores. Concluída a assembleia, como fora deliberado, os ferroviários seguiram em direção à estação e se aquartelaram nos armazéns, oficinas e depósitos.
Conforme publicou a Gazeta de Bebedouro, cerca de 250 trabalhadores permaneceram na esplanada da estação para o cumprimento da ordem de paralisação total dos serviços e de conservação das instalações e equipamentos da empresa ferroviária. Todo o pessoal do tráfego, tração, via permanente e baldeação permaneceu de braços cruzados, ficando retidas 14 máquinas na gare de Bebedouro.
Embora a causa envolvesse diretamente toda a classe ferroviária, a existência de dissidentes levou a comissão grevista a publicar uma nota direta na imprensa local, sob o título “A greve da Paulista”: “você ferroviário da C.P. que não acompanhou seus colegas no movimento reivindicatório por achar que ganhava o suficiente para se manter, doe seu aumento a uma instituição de caridade. Se não doar, é porque você também está necessitado”.
A greve se estendeu até a madrugada de 17 de abril, sendo que na 3ª Divisão Administrativa da Paulista, sediada em Bebedouro, a mobilização esteve sob a liderança do delegado regional Manoel de Oliveira. Após acordo entre os grevistas e a Cia. Paulista, com o atendimento de parte das reivindicações, o movimento chegou ao fim e as atividades foram reiniciadas.
Na semana seguinte, o diretor regional do Sindicato Ferroviário em Bebedouro publicou uma longa carta de agradecimento aos que apoiaram a greve no município, iniciando pelos trabalhadores que durante os dias de paralisação procuraram zelar pelo patrimônio da ferrovia e evitar atos de violência, mesmo contra aqueles que não aderiram ao movimento. Incluiu também as famílias dos grevistas e a sociedade bebedourense que, apesar dos transtornos causados pela mobilização, não deixou de solidarizar-se com os trabalhadores, definidos como membros de uma “classe ordeira, pacífica, trabalhadora e cumpridora de suas obrigações”. Sendo assim, finaliza dirigindo-se àqueles que “compreenderam e souberam dar razão ao nosso movimento”.
O reconhecimento da sociedade sobre a importância da classe ferroviária não foi suficiente, porém, para impedir a continuidade da precarização das ferrovias e dos direitos dos seus trabalhadores. Desta forma, nos anos seguintes outras greves foram deflagradas, sempre motivadas pelas perdas salariais: em março de 1960; junho de 1961; agosto de 1962.
Com o início da ditadura militar em 1964, as paralisações foram interrompidas, ramais foram desativados, houve redução nos quadros das companhias, cenário que favoreceu o enfraquecimento daquela aguerrida categoria de trabalho.
(Colaboração de José Pedro Toniosso, professor e historiador bebedourense,
www.bebedourohistoriaememoria.com.br).
Publicado na edição 10.955 de sábado a terça-feira, 27 a 30 de setembro de 2025 – Ano 101




