Ganhar com o verde

José Renato Nalini

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Aqueles que só pensam em dinheiro deveriam lembrar que preservar florestas ou reflorestar pode ser uma atraente opção de novos lucros. Se a circunstância de a cobertura vegetal preservar a vida não é, por si, suficiente a seduzir o empresariado a investir, pelo menos a certeza de nova fonte de receita deveria motivá-lo.

Assim é que o Brasil já se aproxima de duzentos projetos de crédito de carbono em operação ou em vias de vir a sê-lo. Ainda é pouco, se for considerada a dimensão do país. Nove desses projetos ficam em territórios indígenas e quilombolas ou são desenvolvidos por cooperativas e associações.

Os povos indígenas e tradicionais têm dificuldade em acessar o mercado de carbono devido aos custos e à elevada burocracia no formato tradicional dos projetos. A certificação de um projeto de crédito de carbono do tipo REDD – Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal custa cerca de um milhão de reais por ano. Nesse segmento, os proprietários de terra recebem um estímulo para manter a vegetação em pé. Mais de setenta milhões de hectares degradados poderiam se converter em reflorestas. E isso ampliaria os ganhos de seus titulares dominiais.

É preciso acelerar a regulamentação da lei que regularizou o mercado de crédito de carbono, recuperando o tempo perdido em sua elaboração e aprovação. Há muito dinheiro ainda disponível para investimento no Brasil e nós perdemos tempo com uma invencível e burra burocracia.

Outra questão que impede a intensificação desse mercado é a falta de regularização fundiária. Não se sabendo a quem pertence a área, como fazer o seu posseiro receber os créditos de carbono?

A coisa boa é que também é possível ganhar dinheiro com a preservação, mediante a negociação de uma nova comodity chamada “unidade de conservação”. É o que a empresa “Tesouro Verde” negocia e consegue mostrar que preservação, em lugar de trazer dissabores, traz dinheiro. E essa é a linguagem que a maior parte do empresariado tupiniquim quer ouvir.

Desmatamento na COP30

É triste constatar que o desmatamento ilegal na Amazônia recrudesça no ano em que o Brasil receberá a COP30. Acelerou-se a devastação em maio de 2025, um sinal de alerta não apenas ao governo, como a toda a nacionalidade. O bioma é um dos mais importantes do planeta para o equilíbrio ecológico total.

De acordo com os dados do Deter – sistema de monitoramento via satélite do Inpe – Instituto Nacional de Pesquisa Espacial, divulgados em 6/6/25, a destruição do bioma amazônico em 2025 superou o registrado em 2024 pelo segundo mês seguido. Em maio, foram destruídos 960 km2, contra 400 km2 em 2024. Aumento de 92%! Em abril o aumento foi de 55%, cenário muito preocupante, já que se aproxima nova temporada de incêndios.

A degradação da floresta assumiu novo perfil. Colabora com a devastação o agravamento da emergência climática e das graves secas consecutivas. Foram muitos incêndios neste século: 2005, 2010, 2015, 2016, 2020 e 2024. Aquele temido “ponto de não retorno” e “colapso do bioma” parece estar chegando. Já existe um colapso registrado na área incendiada, que era floresta e já não é. Um colapso existe quando um local é reiteradamente incendiado e a área deixa de ter as características de floresta.

O prejuízo é evidente: perda da biodiversidade, do carbono, da função ecológica. Já não é mais um espaço florestal, um colapso nessa estrutura imprescindível à vida. Qualquer espécie de vida, inclusive a humana. A Amazônia era úmida e se regenerava naturalmente. Mas as emergências climáticas evidenciaram sua fragilidade. Quem diria que ela enfrentaria secas, se ela é detentora – ou pelo menos foi – de vinte por cento da água doce disponível para todos os terráqueos?

Houve uma flagrante mudança da trajetória histórica, ainda até então desconhecida pelos climatologistas. Isso é motivo para preocupação de toda a nacionalidade. O Sudeste depende da Amazônia para manter o seu regime de chuvas. Será preciso explicar que todos estamos no mesmo barco? No caso, o único planeta que nos acolhe e que nos permitiu edificar esta civilização que nos encanta, nos extasia, nos emociona?

Por egoísmo, por ganância – que rima com ignorância – vamos jogar tudo isso fora? Parece que essa escolha já foi feita. Lamentável!

(Colaboração de José Renato Nalini, reitor da Uniregistral, docente da Pós-graduação da Uninove e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo).

Publicado na edição 10.938, de quarta, quinta e sexta-feira, 23, 24 e 25 de julho de 2025 – Ano 101